Canto de lamento

A madrugada havia sido de meditações frente ao mar. As ondas vinham suaves com o seu chiado repetitivo, acalmando os ouvidos. Durante toda a noite só ouviu o farfalhar das folhas dos coqueiros e as águas acariciando seus pés. O vento soprou frio algumas vezes e espancou-lhe as canelas com os grãos finos de areia. Andou durante horas em plena escuridão, longe dos postes e luzes, distante da cidade. Era apenas ele e o mar, a praia e a mata. Tão bucólico, tão sereno, mas havia algo de lânguido nisso tudo. Pensava como era triste estar cercado de beleza e não compartilhá-la com ninguém. Não havia uma só pessoa ao seu lado, ninguém que pudesse olhá-lo nos olhos e sorrir.

De repente o céu estrelado e o mar calmo não pareciam tão animadores. Eram sepulcros de sua própria alma que já estava nas últimas. Ele pensou que deveria entrar cortando as ondas rumo a um cadafalso qualquer, o primeiro buraco que lhe tragasse. Ensaiou um choro discreto, mas até isso lhe pareceu sem sentido. Para quê chorar quando se está sozinho? Ninguém o confortaria. Tirou a roupa e largou-a na beira-mar. Estava nu em pelo diante do grande oceano, sob o manto das estrelas. Seria lindo morrer ali, naquele momento. Deixou a luz da lua banhar sua pele, tocou-se como se dando adeus ao corpo que o abrigara por vinte anos. Foi bom ter habitado aqueles braços e pernas, ter sentido tantos arrepios naquela barriga e nuca, ter sentido voar aqueles cabelos tantas e tantas vezes na janela do carro veloz. Deu o primeiro passo para a água.

Estava fria. As ondas pareciam fazer-lhe reverência, pois ficaram mais amenas. Foi impressão sua ou o chiado das ondas também silenciara? Tudo estava mais calmo. A natureza o estava compreendendo, pensou. Estava concordando. Um silvo rompeu o silêncio, no entanto. Começou como um guincho, um assobio suave e muito agudo que rasgou a madrugada. Tornou-se uma voz. Um canto.

Ele pensou ser a imaginação de um moribundo e não lhe deu importância. Poderiam cantar os anjos sempre que alguém decide morrer? Continuou a entrar no mar. Devia ser aquela a voz de um serafim, pois se ouvia harpas tocando junto a ela. Era de suave timbre, embora forte nas notas. Música como deveria ser a essência das canções, um som florescido de alguma alma triste e bela, com toda certeza. Olhou para trás.

A água já estava em seus joelhos quando a viu na areia da praia. Uma sereia. Cantava somente para ele naquela noite, com sua calda de peixe imensa. Não deveria estar cantando no mar? Pois é no mar que vivem as sereias… Esta cantava–lhe da terra, convidando-o a ficar. Gostaria de ouvi-la um pouco mais, mas já estava decidido a morrer nas ondas. “Volte para a água que é o seu lugar!”, pensou em dizer, mas ela estava linda deitada sobre a terra. Continuou cantando mais e mais, cada vez mais bela e com sons mais singelos. Seus olhos reforçavam o convite: “fique”, e soava ainda o seu canto de lamento pelo homem que ia. Ele virou-se para o mar e olhou o horizonte azul.

Deu mais alguns passos e mais outros. Começou a nadar para o alto mar, sem rumo. A sereia olhou-o da areia e calou-se enfim. Enxergou-o entrar na maré e sumir sob a lua, às vésperas do nascer do sol. Mais um que o mar tragava, mais um homem que ela não atraía. Pensou então em voltar ao seu reino das águas. Talvez o que os atraísse, enfim, fosse o mar.

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