Sob a mira dos olhos de fogo

Sigo para a cama com uma gota de suor na testa. A luz que permanece acesa é aquela do corredor, enquanto o quarto está no breu dos mortos em sepulcro. A cama. Tão bem forrada e aconchegante, tão disposta a me fazer o bem… Mas minha mente pertence a ele, que perambula por aqui nas quinas da madrugada, aos passos altos e lentos ditados pelo badalo do relógio. Deito.

Minha mente não descansa, embora eu queira. Ela não cede aos meus olhos que tentam fechar, fazendo-os abrir de súbito como se tivessem sido assustados. Olho em volta e o quarto permanece negro. Ele ainda não veio. Até quando durará minha paz? Seria paz isso? Penso que não. O teto branco agora é de um cinza escuro e minha vista chamusca pontos negros sobre a tinta. Faço uma prece rápida de palavras repetidas, sem saber bem o que penso ou digo. Não sei nem mesmo se falei baixo ou em pensamento. Minhas mãos buscam o lençol e o puxam para junto do queixo. Meus pés estão embalados no resto do tecido lá embaixo. “Tenho que aprender a dormir quando o sol ainda está no céu”, digo pra mim mesmo, “tenho que evitar a noite”.  Então escuto um barulho na velha cômoda.

São dedos galopando fúnebres sobre a madeira. Ele estava aqui. Eu podia sentir uma respiração ali do lado. Apertei os olhos e as gotas de suor me vieram frias dessa vez. Um cubo de gelo me subiu a coluna como uma mão cadavérica que toca e se arrasta. Meus cabelos se ouriçaram.

Olhei de soslaio para a direita, tentando vê-lo de pé com seu manto negro de fumaça. Tentei ver os olhos de fogo com labaredas lentas que queimavam altas, mas não pude. Meu corpo tinha virado pedra. Eu não podia me mover e minha própria voz correu para longe, largando-me a grunhidos desconexos quando tudo que eu precisava era de um grito de socorro. Eu estava à mercê da entidade, do vulto negro dos meus pesadelos. Ele continuava a batucar na madeira e a respirar fundo com aquela respiração arranhada. Senti que veio para mim. Um passo lento e silencioso, dois, três. O ar quente de suas narinas de búfalo já aquecia minha pele arrepiada. O lençol desceu do queixo, arrastou-se lento até a altura do peito. Meus olhos fechados não queriam ver, mas mesmo assim os olhos de fogo me atravessavam as pálpebras e, ao menos eles, eram nítidos à minha visão. Senti os dois dedos longos se arrastarem sobre o meu pescoço, senti sua postura encurvada e o pisar dos seus pés, que tinham o calcanhar alto e pontiagudo.

Então gritei. Saiu-me o grito como numa explosão! Chamei por alguém que nunca veio, no meio da madrugada tenebrosa. Estava a morte aqui do lado, mas agora não a via. Tudo estava quieto novamente. Onde estava aquele demônio manifesto? A casa zelava pelo silêncio no mundo, enquanto eu queria gritar para despertar algumas horas antes o sol preguiçoso que ainda estava deitado em seu sono infinito. Eu tinha que evitar a noite, sabia, mas ela sempre vinha. Todos os dias. Talvez fosse meu demônio um braço da noite escura que se ergueu contra minha revolta, um soldado das trevas que odeio ou as próprias trevas corporificadas. Esperei.

Logo nasceria o dia, como em todas as manhãs, e tudo que eu poderia fazer era me preparar para mais uma noite. Ele iria estar lá de novo, bem sei, mas a cada novo encontro menos ele puxa do meu lençol. A cada nova noite, seria mais fácil gritar por alguém, mesmo que, no fundo, esse alguém fosse apenas eu.

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