Elx

Nasceu a criança sob grande louvor dos pais e da família, mas o choque do médico da cesárea foi suficiente para que todos soubessem logo nos primeiros instantes que havia alguma coisa errada. Era estranhx. Nasceu sem sexo e sem boca. Tapadx, literalmente, e não faço trocadilho com seu QI já que se mostrou inteligente nos anos seguintes. Era somente alguém que julgaram ser um anjo na infância, abençoadx pelo não-gênero, vivx para ser somente um ser humano, talvez o primeiro andrógino real, uma manifestação divina contra o sexo pecaminoso. Seria o início de uma nova raça? Como aquelx pequenx crescia era um mistério, porque não comia. Também não falava.

Teria sido belx e exemplar, não fosse a adolescência cruel. Iria criar seios? Teria interesse em alguma genitália alheia? Com o tempo as meninas achavam-nx menino demais porque tinha as sobrancelhas grossas e exalava um feromônio qualquer que as atraía. Pegavam-se desejando beijá-lx, mas como? Fato é que o tal feromônio funcionava também para os meninos, que por sua vez julgavam que elx era uma menina. Com aqueles cabelos lisos, quem diria que não? Eram meio longos. Dava para fazer tranças curtas talvez.  Mas elx não olhava para ninguém. Assexuadx. Nunca teve interesse de sequer tocar-se nas partes íntimas, porque ali não havia nada. Era só pele como o era todo seu corpo… E também não beijava, não tinha lábios. Adorava a história de Aquiles nas aulas de filosofia e artes porque disseram-nx que seu nome significava “sem lábios”. Talvez tenha sido seu único interesse amoroso na vida, o mito, embora não pensasse nele como um homem a lhe possuir as partes inexistentes. Seguiu sabendo quem era, apelidadx desde pequeno de “ADE”, embora não tivesse nome de verdade… Como se daria nome a alguém sem sexo? Isso x tornava meio coisa, um objeto. Só se podia ser alguém no mundo se houvesse alguma coisa entre suas pernas e ela precisava ainda urrar para outras coisas diferentes no meio das pernas de outras pessoas.

Cresceu adultx rapidamente, como todo mundo, e deu-se conta de que de repente estava ficando velhx. “Não vai procriar?”, perguntavam os pais e os amigos mais próximos. Não tinha como. Simplesmente era impossível fisicamente. Elx não precisava disso, mas havia alguma lei no mundo que dizia que para ser alguém era preciso ter filhos e casar com alguém do sexo oposto. Constituir família.  Foi então que começou a entrar numa espécie de crise existencial. De tanto obrigarem-nx a tantas coisas, chorava o dia todo. Elx tinha que falar, tinha que beijar alguém, mas não havia nem um traço no lugar onde deveriam estar seus lábios. O que fazer? Elx tinha que foder, mas além de não ter vontade, tinha que fazê-lo com os órgãos que não possuía. Era urgente criar o sexo, criar também o desejo, deitar-se na cama, mas para isso devia definir primeiro qual dos dois sexos escolher. Por onde começar? A agonia levou-x a decidir primeiro começar pela boca. Mesmo que não conseguisse foder, queria gritar.  Que vontade elx teve de simplesmente largar um grito ensurdecedor no escritório onde trabalhava ou em casa!

Pegou então uma faca amolada e passou na boca criando um rasgão sangrento. Um corte para liberar a língua engaiolada há tantos anos. Parecia estar vomitando vermelho, mas era apenas sangue jorrando do traço recém-aberto. Gritou seu primeiro grito, com força, sem tom ou timbre certos. Tinha a voz falha de quem não coordena bem suas cordas vocais. Foi então com a faca para o vão liso que tinha entre as pernas, mas antes que lá fizesse alguma coisa, desmaiou.

Acordou numa cama de hospital, enfaixadx. Com o tempo a boca iria colar de novo, quando cicatrizasse. O médico lhe explicou que aquilo não eram lábios, aquela não era uma boca, mas sim um corte e não deveria ficar aberto. Por mais que elx quisesse, a boca não poderia ser aberta. Nem a boca nem o sexo. “Você nasceu assim”, disse o doutor. Elx olhou para os pais com a tal boca enfaixada e manchada com um traço de sangue seco. Lembrava um sorriso vermelho escuro, mas pelos seus olhos se percebia que não havia motivos para rir.

Elx teve que aprender a ser alguém contra a vontade do mundo. Não precisava de beijos ou palavras, e fez de seu prazer o fato de sentir-se únicx.

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