Família

Hoje me senti família quando visitei meus pais. Estavam lá sobre a mesa os velhos enfeites de porcelana exposta nas prateleiras. Aquela que tantas vezes usamos no natal. A sala tinha minhas memórias e de tantos outros membros da trupe, tinha cheiro de domingo e conversa jogada fora enquanto o sol tostava as plantas no jardim. Visitei-os como entrando no passado para um breve olá sem compromisso de estadia, fui e voltei assim que pude.

Senti-me família abraçando meu irmão, posso também dizer. Vi-o crescer tão rápido e logo estava eu diante de um homem feito, lembrando de suas fraldas mal cheirosas de alguns segundos atrás. Havia algo nele que eu deixei plantar-se, como um pedaço de mim que depositei na sua trajetória, em algum lugar daquela cabeça formada, daquele corpo esticado e dos olhos que pensam que já viram demais, mas ainda não viram nada. Somos família toda vez que nos vemos, entretanto também o somos quando não nos falamos. Tempos e tempos sem um convívio e basta uma lembrança pra que eu o sinta parte da minha vida de novo.

Hoje me senti família com meu cachorro somente. Sim, o pequeno de pelos pretos e brancos que só me olha com carinha de coitado e depende de mim para tudo. Notei que fui dormir sozinho e ele me acompanhou ao leito. Esteve comigo o dia todo, a noite inteira. Ele escuta minhas ladainhas, meus festejos e esperanças, faz do meu dia alguma coisa a ser compartilhada. Quatro patinhas de pelos que são pais e irmãos quando estes não estão por perto e requerem um novo parentesco quando todos estão à volta.

Sou também família com tantos a quem o sangue me enlaça. Não se trata apenas de vínculos rubros escondendo uma genética próxima, são também parte da minha vida e história. São tios e tias, primos e primas, são aqueles tios de segundo, terceiro e quarto grau que você nunca sabe como chamar direito… São todos peças tão bem encaixadas de um quebra-cabeças gostoso de se remontar na memória. São família também, claro. São os meus.

Pare um pouco e pense aqui comigo, então, na raiz de mim. Nas nossas raízes. Hoje eu acordei família e percebo, numa espécie de solavanco suave, paradoxal, que família é tudo e é nada. São família também os meus amigos, aqueles que estavam do meu lado desde o primeiro momento de infância ou do primeiro beijo da adolescência. Afinal, há amigo mais chegado que um irmão, mas também há irmãos mais odiados que inimigos. Quem poderá dizer que minha família tem apenas laços de sangue? Quem verá alguma falta de sentido na família que se espalha, se derrama por essência de amor em outros sangues diversos?

Hoje eu me senti família. Uma família sem genética própria, sem gênero, sem raça. Aquela mesma lá de trás, na qual um homem em Nazaré me chamou para entrar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s