Meu caro

Veja que estou de pé, meu caro, e as flechas que uma vez me cruzaram o peito hoje são gravetos quebrados queimando na fogueira. Sinta cá o fogo crepitando e o cheiro de madeira queimada que inundam minha noite. Sararam-se sozinhos meus ferimentos e hoje são cicatrizes tênues sobre uma pele cheia de memórias riscadas. Ainda estou vivo.

Aquela espada erguida que me desceu sobre a fronte, saiba, transpassou-me de cima a baixo, fria e rápida. Quebrei-me em dois por tempo demais, meu caro, mas me juntei a força e a fogo, para suportar ser um novamente. Seus golpes hoje são ventos que me refrescam os cabelos, brisas que mergulham em meu nariz e boca e refrescam-me os pulmões. Inspiro. Expiro. Glorio-me por tudo que passei.

Sou forte, como você pode ver. Insubmisso às suas rédeas espinhosas. Um pássaro de asas machucadas que voou errado e baixo quando a dor era muita, mas hoje ganha os céus e rasga nuvens, rasga mortalha. Sou um canto de agouro no seu telhado, uma memória de um triste fim que se aproxima. Ergui-me, meu caro, vendo sua queda constante. Ex-lacaio de suas perspectivas, que agora assiste do patíbulo o corpo do amo pender no vazio.

Sobrevivo dando abrigo a novas lutas, compreendendo que há aquelas que eu não deveria ter lutado. Alcanço mais de mim hoje, sabendo quando usar meus punhos, escolhendo com quem duelar. Como é libertador deixar passar as vãs provocações e me dedicar a batalhas que realmente importam.

Hoje estou vivo, sobre todos os pedregulhos do caminho que aqui me trouxe. Exausto, talvez, mas confiante de terminar a jornada.  Hoje sou mais forte. Sobrevivente de um conflito que me tomou a vida inteira, herdeiro de um troféu que eu mesmo me dei. Venci todos os seus muros e algemas, todas as chagas que me foram impostas. Ainda estou vivo.

Faltou-me o ar no desespero um dia, meu caro. Faltou-me coragem para desbravar o que estava por vir. Faltou em mim mais eu que você. Faltou a paz de existir sem medo quando tudo era guerra e morte. Faltaram-me milhares de coisas que hoje são vãs lembranças em um baú abandonado. Hoje me faltam as chaves para reabri-lo. Não quero. Não preciso.

Hoje sigo de peito lavado (e curado), sigo um só e erguido. Sigo só a boa metade, nem um pouco saudoso da metade que morreu. Você que foi caro, tão caro, levando-me os bons anos, fique bem morto lá atrás dos meus passos. Enterre-se de uma vez por todas. Deixe-me somente ir na paz da não-luta, na glória de viver pleno, na vitória de morrer eu.

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