A mulher no vestido vermelho

Ela caiu no chão com um estalo seco, a poucos centímetros de uma poça d’água. Seria dramático ter caído lá (cenicamente mais interessante), mas nada funcionava na vida como nas novelas. Tinha um vestido vermelho surrado, de alças finas, um cabelo desgrenhado e uma maquiagem borrada de quem acabou de sair no lixo da festa. Nas mãos alguns anéis discretos, não era vulgar. Uma aliança de noivado entre eles. Não podia ser prostituta… O que diabos fazia aquela mulher caída na calçada, como que acabada de levar uma surra? Havia tantas incógnitas sobre seu corpo que as interrogações pareciam abutres rondando um moribundo, à espreita de seu falecimento para enfim caírem sobre ele com toda sua força.  Tivesse morrido ali, pelo menos amanhã saberia da sua história pelos jornais, mas se ergueu. Passou por mim cambaleante, mas não cheirava a álcool. Pelo contrário, tinha perfume bom e caro, espalhando-se atrás dela como uma cauda de noiva. Seu cheiro agradável esvoaçava em seu encalço e era convidativo. Quase espichei ali no seu pescoço fino minhas narinas, quase a toquei na mão trêmula e ofereci-lhe um banho ou algum outro cuidado lascivo.

Passou a mulher de vermelho. Não dobrou nenhuma esquina, apenas foi-se adiante, até sumir entre os carros que lhe roubaram a passarela. De quem se tratava? Passei a dar-lhe um nome: Dafne, como aquela mesmo de Apolo. Dei-lhe um passado também. Era noiva de um rico empresário que morava em Boa Viagem, mas contava os dias até a declaração de sua falência total. Bonito, sim, com cabelo sempre arqueado, modelado, em um topete detalhadamente lindo. Chamavam-no Totó na infância, em referência a um cachorro feio de rua que julgavam ter com ele alguma semelhança, mas na verdade tudo não passava de despeita dos amigos mais pobres. Noivou com Dafne há um mês apenas, mas não sentia por ela uma atração real. Diziam as más línguas que nem por mulher se encantava, mas tudo não passava de boatos. Mandava-lhe flores todos os meses em comemoração de aniversário de namoro. Fazia questão de andar com ela de mãos dadas pela orla nas noites de quarta-feira, porque era sistemático. Todos os passeios tinham seu dia e hora certa. Adorava rotinas.

A cena, no entanto, era outra… Era de Dafne jogada no chão com seu vestido vermelho. Como chegou até ali? Dafne foi largada. Ou desistiu do noivo. Teria enfim descoberto suas preferências reais em um caso flagrado na cama? É uma possibilidade, mas se assim o fosse teria tirado a aliança. Não, não. Ela ainda era noiva. Não foi com ele o problema. Família! Dafne brigou com os pais naquele dia porque foi até eles contar que estava grávida antes do casamento. O pai, ex-militar, enxotou-a para fora de casa como a um cão. A mãe não fez nada. Ou morreu no parto, pode-se dizer. Sim, morreu há muito. Não havia mãe.

Pobre Dafne de vida arruinada… Preparou-se para a grande notícia de que daria netos ao pai e agora estava ela mesma sem família alguma. Resta apenas o Totó, que mal sabe que o filho é de outro.

Pego-me então pensando que ela não prestava, como não presta meu olhar novelesco e caricato, como não presto eu. Ajeito-me na cadeira da varanda e prossigo com o olhar. Deve haver mais personagens descendo a rua hoje, alguns menos devassos, outros um tanto mais maquiavélicos e grotescos. Segue a vida da varanda, como seguem as vidas que nada me contam.

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