A cama e os reinos distantes

O carro pousou em silêncio na varanda. Daquele trigésimo quinto andar era possível ver o mar de prédios e os outros veículos flutuando no horizonte. Concreto e jardins suspensos davam à cidade um ar futurista e selvagem, talvez desordenado ou indeciso sobre aquilo que pretendia realmente ser. O mundo tinha mudado demais. No prédio ao lado uma jovem colhia algumas hortaliças de sua plantação particular, trancafiada na sua cúpula de vidro. Trocou-lhe algum olhar de medo ou vergonha e correu para dentro do apartamento com alguns talos verdes ainda em mãos. Ele desceu do carro com seus pertences em meio à ventania e posicionou-se na cabine. A porta rodou trancafiando-o por alguns segundos, o chão girou para dentro de casa.

Havia no ar aquele velho cheiro dos almoços de domingo. O clima estava agradável na sala de estar e a parede de vidro revelava uma cidade amedrontadora, de tráfego intenso. Jogou sobre o sofá sua maleta e seguiu para o quarto ouvindo seus passos ecoarem secos.

Na cama, um senhor dormia. O lençol estava muito bem colocado, sem qualquer dobra, bem acomodado na altura de seu peito, enquanto os braços velhos enrugados se estendiam ao longo do corpo do lado de fora da roupa de cama. Em seu rosto um óculos negro percorria sua cabeça tapando-lhe também os ouvidos e fechando toda sua visão. Estava sorrindo. Do crânio partia um fio. O homem estava conectado a uma caixa preta sobre a mesa.

– Bom dia, pai.

Seus passos foram até o objeto, onde apenas uma pequena luz piscava azul. Tocou-lhe de leve e um painel holográfico se abriu sobre ele. Manuseou alguns botões com agilidade e viu então uma imagem bucólica surgir numa tela à sua frente. Lá estava um rio caudaloso e a grama se esparramava sobre os campos. Algumas árvores davam sombra a um céu de poucas nuvens. Na pequena estrada de terra, ao leste, uma carroça puxada por dois cavalos seguia lenta com dois forasteiros conversando e gargalhando alto. Um deles acenou com seu sorriso sem dentes. Estavam carregando algumas frutas vistosas, com cascas que brilhavam com o toque sutil do sol. O ponto de vista apontou para o chão e pôde ver suas próprias pernas. Pés descalços roçando a grama. Os dedos cavavam procurando o frescor da terra úmida. A brisa fresca percorreu as copas das árvores próximas e chegou como um alento de início de manhã. Mais uma vez a visão mudou, apontou para cima. O som de asas enormes batendo foi se aproximando, até que vieram sobre ele as suas grandes sombras, que rapidamente passaram na direção do rio. Eram anjos, rodopiando no céu em algum tipo de brincadeira.

– Anjos? Continue assim.

Seu pai estava vivendo em outro lugar e era maravilhoso poder acompanha-lo pela tela. Lá do outro lado havia também dragões e batalhas épicas de reinos eternamente rivais, lutas em que o pai era sempre o grande herói. As casas eram de pedra e palha, miúdas, e a comida tinha um sabor como não se achava mais nos dias de hoje. Perdia às vezes dias inteiros vendo as aventuras do senhor de cento e quarenta e dois anos naquele corpo virtual de vinte e cinco. Ele estava feliz ali, dava para perceber. Do lado de cá, o corpo velho definhava, aos poucos morria enquanto sua mente estava eufórica no lugar que não existe.

Uma mulher chegou no quarto e se recostou na porta:

– Venha almoçar. Ele vai ficar bem.

– Eu fico pensando… – confessou – se ele vai sofrer quando a hora chegar.

– Claro que não. – Ela sorriu. – Ele está melhor do que nós. Nem vai notar quando acontecer.

Ele se levantou em silêncio e tomou-a pela mão antes se seguirem pelo corredor. Seu pai continuava sorrindo na cama enquanto assistia o balé dos anjos. “Como deveria ser antes, quando se morria aqui?”, ele indagou na cozinha. “Triste”, ela respondeu servindo o almoço, “deve ser triste saber que o fim chegou”.

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