Maniqueísta

Deu no jornal: acabou-se o pós-moderno e o pós-humano. O século XXI foi a fronteira para o pré-apocalíptico, tempo do surgimento da nova espécie intitulada Homo revoltadus. Estes indivíduos estão sob pesquisa incansável dos mais renomados cientistas do mundo neste exato momento, mas nem mesmo eles se julgam capazes de entender como funciona o raciocínio dos espécimes em cativeiro. Até o momento, entende-se que são maniqueístas de nascença. Entendem que cinza é sujeira de preto no branco e não admitem que haja outros tons entre os opostos. “É curioso, eles enxergam em cores, mas só conceituam o preto e branco”, afirma o Dr. Sigmund.

O Homo revoltadus aprende a postar em redes sociais com facilidade e tem tendência a compartilhar com os colegas, já na primeira infância, toda informação não comprovada depreciativa ou de fundo político anarquista. Algum problema no genótipo torna evidente a perda de memória e a maioria deles não se lembra de fatos históricos ou erros cometidos em passado recente. Neste final de semana, dois deles morreram de tanto baterem a cabeça na parede porque há dois meses havia no local uma porta. Esquecem também boas conquistas e agradáveis lembranças, porque tudo que ocupa suas mentes está pautado no aqui e no agora. São imediatistas, conforme os dados do último censo, e a paciência inexiste no meio virtual, embora em meio físico sejam revestidos de uma espessa couraça de respeito ao próximo e submissão a hierarquias.

A nova espécie tem também problemas sérios com a Imunodeficiência de Gêneros e Sexualidade devido a convicções religiosas impressas na sua cadeia de DNA. Cientistas acreditam que a doença seja mais um resquício do maniqueísmo característico, fazendo com que os indivíduos só enxerguem homens e mulheres, todos heterossexuais, com superioridade masculina em detrimento da submissão da fêmea procriadora. Qualquer coisa fora deste padrão é motivo de ira e pensamentos neonazistas.

O diretor da Primeira Casa de Praia com Piscina Para Estudo do Homo revoltadus falou ao jornal com exclusividade: “Este cativeiro é essencial para entendermos como estes indivíduos se comportam em seu habitat natural, temos wifi para que eles usem as redes sociais 24 horas por dia, a geladeira está cheia e existem mais de trinta empregadas com todos os seus direitos pagos conforme manda a lei”, afirma Dr. Sigmund. “Temos ainda uma capela ecumênica perto do mar, onde os espécimes podem assistir palestras de alguns líderes religiosos extremistas e se sentirem parte do plano divino para a humanidade. É uma mega estrutura”, completa.

Enquanto não entendemos como funciona a mente da nova raça, cientistas se preocupam com a proliferação rápida dos indivíduos. Acredita-se que para fazer nascer um Homo revoltadus seja necessário menos de um ano de banco de igreja xiita ou apenas seis meses de acesso a redes sociais. Um tratamento com o retrovírus da Educação e do Respeito já foi desenvolvido para tentar manipular o DNA defeituoso da nova espécie e já tem obtido bons resultados. Enquanto isso, faça você também a sua parte: não obedeça cegamente os que se autoproclamam a voz de um Deus rancoroso, procure conhecer os dois lados das situações, duvide, pergunte, pense antes de gritar e, principalmente, afaste-se dos maniqueísmos.

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