No quarto de motel

A mão dele foi até o chuveiro e ajustou a direção da água quente. Gostava das gotas ferventes batendo forte sobre suas costas, por mais que, inicialmente, isso significasse uma dor. Entrou de corpo nu sob a água e se deixou molhar. Deslizou as mãos pelo corpo e pôde se sentir por um momento. Eroticamente tocou-se por alguns instantes, enquanto a pele escaldava. A mistura de dor e prazer lhe era agradável naquela noite. Ergueu então as mãos até o vidro do box e limpou o embaçado que o cercava. Pôde ver a cama do motel.

Adorava aquela suíte, sem paredes, onde cama, sofá e banheira conviviam harmoniosamente debaixo do espelho de teto. Uma área de pole dance brilhava silenciosa sob as luzes coloridas que vinham do teto, rodopiantes. Na cama podia vê-la deitada. O vidro voltou a embaçar, o que lhe rendeu mais uma espalmada rápida. Ela tinha belas curvas, cabelos negros que perdiam seus limites na escuridão do quarto. Tinha os seios expostos, com seu caimento natural, e da cintura para baixo um lençol de seda lambia-lhe o corpo, correndo para baixo durante seus menores movimentos. Ela respirava leve de início, mas aos poucos foi se exaltando. Os seios subiam e desciam em uma respiração cada vez mais forte. A coluna ergueu-se em arco, afastando-se da cama, as pernas se abriram. Havia alguém sob seus lençóis, beijando-a pelas pernas e virilha. Ele pôde assistir do box, enquanto a água quente já não o escaldava. O calor líquido agora era apenas relaxante.

O homem escalou o corpo dela, saiu de dentro da cama como brotado do colchão. Ela arfava seus suores mais íntimos, trancava os olhos, abria a boca como se quisesse suplicar algum movimento, mas nunca era necessário. Ele sabia o que estava fazendo. Do box, o admirador também se tocava.  Estavam os três em êxtase, concentrados em seus prazeres, até que o amante beijou-a no pescoço. “Puta”, sussurrou para ela. A resposta foi um sorriso maldoso, uma mordiscada no lábio inferior. Aquilo não era um insulto, era um incentivo. “Vagabunda”, continuou dizendo enquanto molhava a orelha dela com sua língua. Ela gostava.

Foi quando as mãos dele foram até o pescoço suado dela. Seus dedos foram se aproximando em torno da sua garganta. “Você é uma puta”, disse com a voz mais firme. Ela despertou de um transe, percebeu a força das mãos dele sobre seu corpo. “Você está me mach…”, tentou dizer. A voz engasgou. As mãos dele se juntavam ainda mais. O ar não podia passar mais pela boca aberta dela. “Vagabunda”, repetiu sério, olhando-a nos olhos, “vagabunda!”.

Do box, o admirador continuava se tocando. Dava-se prazer enquanto a cena acontecia ali na frente. Ela gemia sua morte enquanto o amante colocava todo seu peso nas mãos que a sufocavam. Ela se rebatia e o espectador arfava debaixo da água quente. O amante, por sua vez, encarava o box, via de longe o movimento sob a água, por trás do embaçado do vidro. Três corações batendo, nervosos, pela morte, pelo êxtase, pelo orgasmo. Chegaram juntos a um fim quando um corpo parou, outro relaxou e outro gozou. O grande final da noite.

O amante levantou-se nu da cama e caminhou até o box, olhando para baixo. Abriu a porta de vidro e encarou o chuveiro. Ajustou o jato de água quente, tomou banho sozinho, sentiu-se queimar pela água fervente. Ele levantou a mão e limpou o embaçado do vidro e viu-a na cama deitada, com os seios à amostra. O lençol cobria-lhe as pernas. Eram apenas um homem molhado e uma mulher morta em um quarto de motel.

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