Sem ar

Era um velho já debilitado, de poucos cabelos e muitas rugas. Tão magro que a pele lhe escorria no pescoço e pendia de um lado para o outro conforme dava seus passos travados e cansativos. Sua filha mais velha mantinha-o em casa, guiando-o da cama para o banheiro, do banheiro para a mesa, da mesa para a cama. Diversas vezes se flagrou em oração para que Deus o levasse de uma vez e o poupasse do sofrimento. Sabia, entretanto, que o sofrimento que ela queria aliviar era o dela mesma e se sentia culpada por isso.

O pobre homem com seus noventa e tantos respirava com ruído e tinha os olhos mais cansados que ela já vira na vida. Era seu pai por debaixo daquela carcaça destruída que chamavam de corpo. Ele estava ali embaixo em algum lugar! Ela lutava para encontra-lo todos os dias, no menor dos movimentos, numa brecha de sorriso que surgia do nada como que invocada por uma lembrança. Já não sabia se ele percebia o mundo como o mundo de fato era ou se vivia em seu mundinho senil, transitando entre memórias e devaneios. Às vezes chamava pela esposa, morta há mais de duas décadas, em tantas outras fitava o rosto da filha como se encarasse uma estranha. Franzia o cenho. Tratava-se de uma vida de dedicação em nome de um amor que só existia de um lado das partes. Ele já havia deixado esse mundo, era notório.

Durante as noites dormia com dificuldade. Ficava sem ar constantemente, pigarreava mas nada lhe saía da boca para o penico ao lado da cama. Existia um nó na garganta dele e a única vontade da filha era enfiar a mão ali e tirar aquilo com as unhas. Não, ela não queria que ele respirasse, queria ela mesma poder respirar em paz. Dormir.

Ela fazia as preces, todos dos dias, já deitada, com sono. Perdia-se nas palavras quase sempre e nunca chegava ao amém. Todas as noites começava com um pedido de paz e várias vezes deixava surgir o pedido de morte. Seria o melhor pra ele. As palavras, no entanto, nunca tocaram sua voz… Estavam apenas na sagrada reclusão dos pensamentos, como um pecado secreto que se cria e se alimenta, tomando por certa sua domesticação eterna.

Foi numa segunda-feira atordoada entre afazeres domésticos e cuidados com o pai que aconteceu. O trabalho era sempre feito no computador, quando sobrava algum tempo, mas há três dias não conseguia adiantar nada do que tinha para fazer. Fez o almoço às pressas, trouxe o velho da cama para o chuveiro, do chuveiro para a mesa. Empurrou-lhe um prato de arroz com leite, deu algumas garfadas rápidas no seu próprio prato e a comida não desceu. Travou a garganta dela. O seu rosto começou a azular. Levantou-se nervosa da mesa, tentou tossir. O velho olhava para a cena sem compreender direito o que via. Tentou levantar-se também. A filha derrubou os pratos, jogou-se sobre o móvel da cozinha. Tentava respirar, mas o ar não entrava de jeito nenhum. Era isso? Iria morrer sem ar diante do pai de noventa e tantos?

Enxergou-o então fazendo um movimento leve com a cabeça, como se inspirasse e expirasse devagar. A estas alturas já não ouvia nada, apenas via o senhor à sua frente ensinando-a a respirar. Ele sabia como fazê-lo, sua luta com isso era diária. Provavelmente ela ainda ouviu saírem dele algumas palavras – “Já vai passar”, talvez.  Mas ela tinha conhecimento de que o seu caso era diferente.

Havia uma comicidade naquilo, afinal. Ele simplesmente não sabia o que ela estava passando, como também ela jamais saberia o que ele passava, nunca saberia sequer o que era chegar aos noventa e tantos. Estaria ele também agora pedindo que Deus a levasse de uma vez por todas para acabar com aquele sofrimento? Enquanto morria, ela pedia a Deus que a salvasse, mas Deus preferiu vê-la morrer.

O velho saiu lento para o quarto para pegar um cobertor. Cobriria a filha que dormia no chão como sempre era coberto depois que a crise de asma passava. Impossível, no entanto, era dar-lhe o beijo na testa. Sua coluna já não suportava esses exageros.

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