Sem jeito

A amiga chorou copiosamente depois de dizer que era lésbica, mas ele ficou sem jeito de dizer que tudo iria ficar bem. Não iria. Não conseguia dizer que estava tudo bem. Não estava. Ela devia ter sido sua futura esposa porque todos já haviam reparado que eles eram um grude só, para cima e para baixo pela cidade. Jantando juntos, rindo, falando da velhice e dos problemas que ela traria. Lésbica. Por um momento ele se perguntou quem era aquela pessoa na sua frente, dizendo para si mesmo que não a conhecia mais. Criou uma espécie de asco na frente do amor que sentia e se viu retraído em dizer algo reconfortante. Tentou levantar a mão para tocar-lhe o ombro, mas o braço travou na metade do caminho. Ela não viu o movimento, apenas soluçava de olhos fechados.

O mendigo deixou cair as sobras que lhe deram na esquina de dois quarteirões atrás, mas ela ficou sem jeito de ajudá-lo ou lhe oferecer um outro prato de comida. O sinal estava para fechar e era a sua deixa para cruzar a rua movimentada. A lanchonete há dez metros dali tinha os preços baratíssimos expostos num cartaz. Dava para ter comprado alguma coisa e tudo que ela perderia seria R$ 4,99 e uns cinco ou dez minutos, mas tinha gente olhando. Outra pessoa poderia passar por ali e fazer a boa ação, mas ela, infelizmente, não podia perder mais tempo. Os segundos que passou olhando a cena foram mais dedicados à feiura da comida espalhada no chão, roçando nos dedos sujos do pedinte que ainda tentava trazer alguma coisa à boca, do que olhando de fato para o indivíduo. Sintomático? Talvez lhe preocupasse mais o desperdício da comida que a fome do maltrapilho.

Ele viu o amigo de infância se despedir uma noite antes do avião levantar voo. Iria morar de vez nos Estados Unidos e agora poucas vezes teria do seu lado aquela presença tão constante nos últimos vinte e cinco anos. Quis ter chorado e dito o quanto o amava, despejado toda a importância que aquele outro tinha na sua vida e como ele faria falta, mas ficou sem jeito de fazê-lo. “É amanhã, cara”, ele ouviu da boca do amigo, que falou como que esperando um texto complementar vir do lado de lá. O que surgiu foi alguma piadinha infame sobre pegar todas as gringas e exagerar na cachaça durante as festas desregradas. Sorrisos amarelos e nenhum abraço. As lágrimas ficaram escondidas na alma, decantando palavras que se contorciam no peito. O avião subiu para se perder no azul, tão rápido quanto o choro que veio depois, no silêncio do banheiro.

Todos sem jeito, veja bem. Como se houvéssemos perdido ao longo do tempo a capacidade de botar pra fora o que deveria sair do jeito que fosse. De todo jeito. Trancamos no peito a dor domesticada e na boca as palavras de afeto, enquanto é fácil deixar sair o que não devia. Não tem mais jeito, penso aqui comigo. Nenhum. Mas eis que também fico sem jeito de dizer que não há mais esperança. Sem jeito de acreditar que nos tornamos isso. Porque outros amigos abraçarão a amiga lésbica, muitos pagarão um prato de comida ao pedinte e tantos outros falarão de amor sem as podas do machismo. Um dia aprenderemos um jeito, afinal, de sermos mais alma e menos contenção, deixando sem jeito apenas o que for pesado demais para levar no peito, e assumindo a leveza de um voo desajeitado.

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