Dois senhores

Estou na multidão que passa, feito pedra estática na correnteza de gente. Eu sou o divisor dessas águas, uma lâmina cortando a passeata. Sozinho, temo. Inerte. De repente o mundo diminui e faz surgir o meu sufoco. Mesmo no meio da praça, ou do asfalto, sinto paredes invisíveis que me cercam e elas estão em pleno movimento na minha direção. Como pode o mundo inteiro me parecer uma cela minúscula? A vontade é de correr ensandecido e provar para mim mesmo que não há barreiras, sentir no rosto o vento de uma liberdade intocável me confortar sussurrando: “acalme-se!”. O coração do nada arfa, como que esfaqueado de morte, condenado a um futuro de sofrimentos que sequer lançou sobre mim uma sombra de existência. Tontura. O chão me parece distante e minha alma já caiu de joelhos no chão, enquanto o corpo titubeia a cada passo. São tantas pessoas ao redor, tanta vida que não me toma. Uma felicidade passa correndo pelas crianças ao meu lado, mas dela só consigo ver o rastro turvo de quem foge. Talvez eu seja invisível, ou no mínimo uma coisinha insignificante que se confunde com as árvores do canteiro. Quero gritar aqui, sim, no meio do povo, bradar uma agonia sem sentido que me toma. Sou vítima da minha mente, que em dado momento transformou meu corpo numa prisão e a realidade numa grande mentira. No meio de tudo isso, entretanto, o medo. Um medo de não viver amanhã, que me faz esquecer que estou vivo hoje. Como é arteiro o pensamento! Subitamente me faz cair na falácia de que vivo na corda bamba, equilibrando-me entre o fracasso e a morte, entre a solidão e a doença.

Agora, entretanto, estou de fato sozinho, com os pés enfiados na areia fina, olhando o mar. Os grãozinhos deslizam pelas brechas dos meus dedos e o barulho úmido das ondas me acaricia. Um eu liberto escorre de mim, sentindo-se maior que meu corpo. Está espalhando-se pela praia, infiltrando-se no oceano. Posso ver as entranhas da terra e da água, seus seres, sua dinâmica. Puxo para mim um ar fresco que nos pulmões vira éter de vida, dispara meus sentidos. Sinto cheiros e toques, ouço um canto na brisa. O ar tem gosto de azul e meus olhos, mesmo fechando-se em gozo, são capazes de ver o infinito. Sinto que não sou mais um indivíduo só, mas um pedaço de um todo complexo, acompanhado de uma vida pulsante que retumba na falésia, nos arrecifes, no bosque que deixei para trás. Somos todos um esporo de universo, compondo uma bela harmonia para a canção que as estrelas entoam. Nesse momento me sinto pleno, maior que a morte, certo de que sou uma essência evanescente que salta de matéria em matéria, um peregrino eterno que teima em esquecer sua imortalidade.

São dois de mim ou um só partido ao meio? De toda forma, sei que sirvo a dois senhores que vivem a se digladiar. Tomam-me de assalto no jogo de seus poderes, embora eu creia que, na verdade, fazem de mim a cama de suas núpcias.

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