A madrugada dos campos devastados

Chega furioso o turbilhão da vida. Avassalador. Varre os campos da mocidade com seus ventos tormentosos, deixa atrás de si um rastro de caos e ruína. Onde tudo era flores e casinhas de madeira, ao lado de riachos de águas pacíficas, existe, então, um vasto descampado de medo que se deita até o horizonte. A terra se contorce com cólicas monstruosas, o negro rasteja sobre o verde da antiga grama. Veio covarde, o turbilhão, veio sem aviso.

Um belo dia tudo muda, posso dizer. Olhe os anos que já passaram, olhe o corpo que já não é como antes. Ao lado não há mais a luz da janela que se abre para o infinito, mas o próprio infinito em carne e olhos profundos, encarando-te como um demônio amedrontador. Onde ficou a beleza na estrada que percorri? Os arredores me sugam para o chão, dão-me o peso que nunca tive. Sou fincado no chão e tragado aos poucos, impossibilitado de seguir viagem.

Alguém sussurra que o turbilhão não vem para ficar, que ganha os novos horizontes e vai embora, deixando a terra revigorar-se. Espero. Não creio. Os ventos vieram também pelas planícies da alma. Passaram de fora para dentro e derrubaram meus móveis e quadros na parede. Sou sala devastada dentro do peito.

Deus de cima me observa, como quem manda o vento e como quem perdeu seu jardim. Meus olhos o questionam por um minuto, mas as letras no seu rosto e as palavras em sua boca estão em idioma que não conheço. Procuro suas intenções, imagino-as em todos os vieses, mas elas são para mim como novelos confusos que se perdem no meu desnovelar. Há um pedido nos meus lábios, que não sei se devo proferir, então me contento em olhar para cima, com os olhos de quem suplica, esperando misericórdia.

Que sopre do leste uma brisa morna como resposta. Que venha sobre os campos devastados uma fina camada de orvalho nas primeiras horas de um novo dia. Aguardo o sol que não desponta, embora ele tenha me prometido sempre voltar a subir. Há um fôlego que busco aqui dentro, acanhado na sala devastada, há, ainda, um sorriso perdido entre as raízes de meu desespero. Cato-os todos numa cesta pequena na esperança que me digam palavras de conforto, esperando que se multipliquem e me revigorem, que se levantem para refazer o mundo.

As forças são débeis. Os movimentos poucos. O que posso fazer é deixar-me ir na madrugada do tufão, entender a catástrofe e aceitar as perdas. Pode ser que tudo mude, inclusive eu.

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