Monólogo sobre a memória

Não quero ser saudosista, mas minha alma me compele ao passado sem qualquer aviso. Acho que meu corpo começa a se perder no tempo, guiado pela esclerose que afeta a linearidade dos anos. Memórias inúteis são constantes, mas possuem em si uma beleza simples que só pode existir no despretensioso. De nada me vale lembrar a estampa do sofá da sala da minha infância, ou da velha TV de tubo e seu chiado infernal, mas as imagens estão todas postas à mesa, como um banquete de delícias turvas. Velhas? Não me parecem velhas. São vívidas, tanto quanto vagas. Não me servem de nada.

Havia um quadro em preto e branco na sala com duas pessoas dançando, mas os corpos eram tão tortos e unidos que passei meus primeiros anos enxergando ali um monstro de quatro pés e várias mãos. Lembro-me também de como o sol entrava pelo vidro fosco da área de serviço todo fim de tarde, lançando sobre a fumaça do café um ar cinematográfico. Que paradoxo a memória! São pífias em sua maioria, mas também preciosas.

Não me pergunte porque, mas guardo a imagem da mesa de madeira da sala de aula, suja de corretivo, guardo o cheiro de mofo do quartinho abandonado do quintal e também a imagem do maiô verde, com franjas, da namoradinha de infância. Sons. Tenho sons gravados nas lembranças. São belas gargalhadas e ruídos incômodos, cada um vindo de um lado, de uma pessoa, de um objeto. Minha mente é um baú velho de coisas pequenas que não tinham o menor motivo para estarem ali.

Certamente há também as memórias importantes, os grandes momentos, mas não me incomodam. De tão grandes e marcantes estão seladas em sono profundo, nutrindo o subconsciente e deixando-me viver sob seus ecos. Não são elas que me fazem rir sozinho durante um jantar ou me saltam à mente durante uma caminhada nas ruas da cidade. São as outras. As inúteis.

Paro e penso que essas memórias tímidas, de beleza singela e sem interesse, ainda estão acontecendo. O que é que estou vivendo nesse momento que irá se transformar numa bolha de passado daqui a alguns anos? Que imagem boba que estarei vendo nas próximas horas a minha mente guardará para depois? Existe alguma coisa sim, agora, que meus olhos registram para me lembrar no futuro. Há toda uma beleza aqui, nesse instante, mas eu não a percebo por enquanto.

Em que momento eu também fiz memória nos olhos de quem amo? Terá sido na brincadeira improvisada? Talvez parado, pensando na vida. É assustador saber que as memórias estão sendo feitas nesse momento, para mim e por mim, estão sendo escritas em várias almas e datando suas existências. É também reconfortante, e me perdoem o paradoxo mais uma vez (confesso que os adoro), porque não há nada mais mágico e belo que saber que a vida é exatamente isso: deixar ser o que se é, construindo o imortal a partir de banalidades.

 

 

Imagem: A persistência da memória – Salvador Dalí (1931)

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