A camisa velha

A camisa com o desenho de um pato estava na janela, posta cuidadosamente, como que estendida para receber o vento que passava tímido naquele segundo andar. Ela não parecia ser especial. Um pato, em cartoon, usava óculos escuros e, curiosamente, vestia uma roupa de praia e uma boia de pato (?) ao redor da cintura branca. Havia algo de existencial naquilo. “É só uma camisa na janela”, comentou o amigo deitado ali do lado… Mas não era.

O cigarro passou de mão. Os dois continuaram olhando o vento e a camisa. Pareciam brincar, embora a brincadeira fosse cada vez mais perigosa para o pato. A queda era curta, mas patos não voavam. “Pato voa?”, perguntou o loirinho. As falas estavam soltas. Nenhum dos dois lembrou, cinco minutos depois, se a resposta havia sido dada. Houve um pouco mais de fumaça no quarto. Talvez um pato com uma boia de pato não fosse tão ridículo quanto eles próprios, esperando o vento carregar uma camisa velha pela janela. “Que que acontece quando o vento derrubar?”. O trago foi maior e a voz saiu contida, pra dentro. Deu de ombros.

Beijaram-se antes do último trago e o cigarro foi largado sobre o piso frio de azulejos claros. Não viram quando o vento enfim soprou e levou a camisa para seu voo particular. Era malha fina, vagabunda, então se deu ao balé dos rodopios, ousando até mesmo subir um pouco mais e espiar o terceiro andar.  Pato voava, e voava bem. Curioso, entrou na sala do primeiro andar. A gestante olhou o pano velho no chão com um leve susto, mas pela força do vento que lhe ouriçou os cabelos percebeu que a roupa tinha entrado pela janela. Tocou-a com nojo e foi até o parapeito, olhou para cima. O mar de vidros e concreto subia sobre sua cabeça e ninguém estava requerendo a peça perdida. Olhou-a novamente, já sem tanto asco, e gostou do pato. Era simpático com aqueles óculos grandes e um sorriso infantil. Seu filho gostaria? Talvez lhe agradassem as cores, porque certamente seria grande demais para que fosse vestida. “Pode ser um bom sinal”, pensou.

A camisa velha foi pro balde de roupas sujas. Passaria por uma boa lavagem e se alguém a requisitasse nos próximos dias, a teria perfumada e limpa. Caso contrário, ficaria ali, na gaveta, até que o bebê chegasse e pudesse olhar para o pato colorido com roupa de praia e boia de pato.

Seria um amuleto até que o menino crescesse. De alguma forma a velha camisa iria dizer alguma coisa para ele. O mais importante, ela achava, seria o fato de que é ridículo ser um pato e usar boia de pato. Iria ensiná-lo a ser o que nasceu pra ser, a se entender e se aceitar. De alguma forma ela sabia que um dia seu filho iria olhar para aquela camisa e descobrir essa mensagem discreta na imagem aparentemente ridícula. Podia até imaginá-lo deitado no quarto, vendo a roupa velha pendurada na janela, decifrando-a aos poucos. Imaginou também que ela mesma, etérea, levaria a camisa embora quando a mensagem estivesse compreendida. Assim como a roupa velha chegara, deveria partir. Ao vento, para o próximo, vinda de ninguém.

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