Todos juntos

Existe uma diferença, muitas vezes despercebida, entre o eterno, o infinito e o imortal. Em noites assim, vale lembrar. Diz-se que o eterno é tudo que existe além do tempo e, desta forma, nunca começou e sequer terminará. Ser eterno é não saber a data do início e também não saber do fim. É existir sem conhecer passado, presente ou futuro, o que deve se assemelhar ao mais sublime aspecto das divindades. O infinito, por sua vez, começa, mas não termina. Segue a linha do tempo, indefinidamente. Ele acorda no tiro de largada e vai, sem rumo. Não há tanta diferença para o que é imortal, devo dizer, mas há um ponto crucial que separa os dois termos: a vida. O imortal não começa, ele nasce.

Eterno, infinito e imortal podem ser tão próximos, meus amados, que esquecemos de diferenciá-los. Todos correndo loucos para existir sobre o tempo, como se o tempo fosse um vilão ou a própria morte com a mão na foice. O tempo! Em noites como essa, ele está aqui, como esteve na década passada, naquela outra casa, com aquelas outras pessoas. Está nos dando uma fagulha de eterno. Nós, que só sabemos nascer para morrer, estamos sendo, agora, imortais sob as bênçãos do tempo.

Demorará alguns anos, mas esse exato minuto será lembrado. Todos juntos, ao som de uma música qualquer, falando alto e rindo, brindando e comendo, andando de um lado para o outro. Há nessas pequenas coisas uma magia indecifrável, invejada pelos que já estão sozinhos na idade derradeira. Chamam-na saudade, enquanto a chamo felicidade. Haverá, nesta noite, algum gesto simples ou palavra rasa que nos cavará a alma para um sono profundo dentro de nós. Quando será? Estamos vivendo hoje a memória de amanhã, como se o tempo tivesse se dado um nó confuso e atado as pontas distantes. Para ele não existe antes e depois. Tudo apenas é.

Se o nome de Deus é “Eu Sou”, talvez tempo e Deus sejam uma coisa só, aquele que nunca foi ou será, porque triunfar sobre o tempo é tão somente ser o agora! Plenamente e somente o agora! Em noites como essa, somos uma memória viva que vence as décadas, por motivos diversos e frívolos, como um infinito que se deixa prender.

Em noites assim é fácil entender quem somos afinal. Não vítimas do tempo, mas suas crias inconsequentes, aprendendo a admirá-lo e a sarar suas agressões. Somos imortais, por segundos eternos, dançando nos infinitos de uma noite veloz.

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