Como Paolo e Francesca

Quando ela me beijou, prometeu que seria diferente. Um relacionamento como eu nunca tive, embora também cheio de dores e discussões de longas madrugadas. Não me prometeu uma vida tranquila, mas intensa. Disse-me ao pé do ouvido que me daria os maiores gozos e também as maiores frustrações. Condenou-me, por toda a vida, a ser um vagante de um submundo que eu desconhecia.

Nosso primeiro encontro foi histórico. Mostrou-me como ela havia amaldiçoado a tantos outros antes de mim e, de certa forma, me senti ofendido por não ser o primeiro. Sempre havia alguém que ela já havia visitado antes, contado aquilo que para mim parecia novidade, estragado meu ineditismo. Aos poucos gostei disso. Ela me fez sentir que eu não precisava ser o primeiro, apenas ser aquele que faria de novo, do meu jeito, aquilo que tantos outros já fizeram.  Fui embebido em sua promiscuidade insana, aprendi a ser como ela, livre de todas as regras. Quebrei-as todas dentro de mim, enquanto ela ria, feliz com meu progresso. Beijou-me de língua e alma quando estive de pé ao redor de todas as correntes partidas.

Fui condenado ao tal submundo nesse momento. Percebi que estávamos à margem da realidade, percebendo que todos prezavam pelos moldes da perfeição, enquanto nós estávamos nos divertindo no disforme, no mutante, no amorfo. Eu precisava dela do meu lado a cada instante e a transformei em minha droga ilícita, minha dependência. Tomei-a em doses pequenas quando não pude bancá-la, assim como morri de overdose a cada pequena fortuna que possuí. Gastei-me, posso dizer, nesse prazer ilógico. Consumi a minha alma inteira a cada encontro e dei-me ao renascimento, ainda maior, melhor e mais liberto. O que ela é capaz de fazer comigo não se explica. Às vezes acho que ela é o próprio Deus.

Não há entre nós um lamento ou uma doença, porque nada nessa simbiose se classifica para o mal. Nem mesmo as dores que me causa. Sim, ela me bate, me destroça, me deixa em farrapos por tantas e tantas vezes, mas tudo isso, paradoxalmente, me realiza. Aprendi a ser ela, a viver essa vida de sombras e risos, na dependência eterna de nosso sexo selvagem e raro. Ela faz parte de mim e de muitos, faz de nós uma legião de poetas, criando versos em cada milímetro de vida. Somos todos mortos, porém mais vivos que a maioria. Somos amantes da Arte, essa promíscua donzela, que nos beija a cada dia a boca e os olhos, fazendo-nos falar o que ninguém fala e ver o que ninguém consegue enxergar. No final das contas, ela é beleza, e consegue sê-lo mesmo quando se propõe a ser feia. Ela é nossa maldição e nossa bênção, embora nos reste sempre a liberdade plena no final de nossos olhares apaixonados.

 

 

Imagem: O beijo (Rodin, 1886 – fragmento)

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