A tela preta

Um comprido corredor pode ser visto na entrada do museu. As paredes altas, cheias de adornos renascentistas, não mais abrigam reis e rainhas, apenas obras de artistas. Quadros por todos os lados, organizados sem critério algum. Pode-se ver um Caravaggio zombar das manchas de Monet, enquanto discute supremacia com um van Dyck mal pendurado. Estranhamente dividem quase o mesmo espaço, debaixo da mesma luz. São centenas deles, das mais variadas épocas e técnicas, nas cores puras e nas prostituídas, nas imagens de santos e de quadrados perfeitos. Percebo como já criamos de tudo um pouco. O lugar é grande e o corredor não acaba.

Distante, entretanto, vê-se a tela das telas. Toda a multidão de visitantes está ali aglomerada, observando a grande obra. Da Vinci deve ter surgido em espírito para confortar a sua musa, que agora repousava desprestigiada no corredor de sua prima redonda, pintada por Botero. Absolutamente nada se comparava à obra suprema da humanidade, escondida por trás das cabeças amontoadas. Aproximei-me a passos encurtados, deslizando entre os admiradores. Deparei-me com ela, soberana sobre um pedestal de ouro.

A tela era tão somente preta. Nada mais que isso. Preta em suas polegadas tímidas, com um brilho estranho e peculiar. De cima a baixo, era negra como o céu das madrugadas quentes. “Mas o que há de tão grandioso?”, pensei. Explicaram-me sua importância com tanta veemência que me decidi favorável aos seus títulos.

Era encantadora, capaz de nos sugar para dentro e nos dar outros mundos, também capaz de nos fazer viver o caos de um mundo que não vemos. Através dela podemos também deixar de lado os pudores e os limites, porque aquela grande tela facilmente nos serviria como um manto do invisível. Nela, poderíamos ser o pior da humanidade enquanto tomávamos o chá das cinco. Era algo muito além das viagens amedrontadoras de Bosch, porque da tela preta não se voltava comovido, mas transtornado. Provei-a, enfim. Dei-me à contemplação da tela das telas.

Vi lá dentro um mundo distorcido, estranho. No breu da tela todos eram ásperos e o sorriso surgia de bocas sisudas. Não havia promessa do bem triunfante no final da história, apenas caos. De lá voltei menos humano e mais tela. Saí negro por dentro, maculado. Voltei para casa com vergonha das outras obras ali penduradas, que me olhavam de volta com vergonha do que viam. Perdão, pintores de outrora, porque percebo que ao contemplar a grande tela, também deixei nela minha pincelada. Estamos todos meio-tela, enfim, feridos de morte pelo preto-luto, pintados de volta pelas não-cores dessa escuridão.

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