O autor

Ele me pediu uma carta. Amavelmente me deu um sorriso em troca. Queria ver nas letras a poesia dos esquecidos, do tipo que faz rasgar a alma e nos transborda um sentimento tão glorioso quanto terrível. A catarse pura no sofrimento do outro, para tentar aliviar suas próprias dores. Ele pediu a mim um texto com meu sofrimento, para que o dele fosse aliviado. Dei-o. O texto era curto, com três ou quatro parágrafos, mas tinha anos de minha dor mais profunda. Saiu-me como num parto! Depois de horas estilhaçando a machadadas a porta que eu mesmo já havia trancado. Não foi suficiente.

Pediu-me algo mais substancial, que não se acabasse em uma leitura de cinco minutos. Queria perder tempo comigo, ou melhor, com meu texto. Queria deitar-se com minhas palavras, presumo, adormecer na leitura perdida dos que desfalecem ao travesseiro. Toda minha coerência seria, para ele, um caldeirão de palavras e frases sem sentido, sob a mira dos olhos sonolentos. De toda forma, escrevi. Entreguei-lhe um texto longo. Diria que era um capítulo de uma obra que não seguiu adiante. Meus textos para ele nunca tinham fim, ele não saberia a diferença. Estavam ali minha infância e meus traumas, porque cavei-me até o íntimo dos íntimos tempos e expus-me de uma forma constrangedora. Contorci-me, cruelmente, para pingar-me suor e sangue nas páginas que rabisquei. “Não”, ele disse, “não é bastante”.

Um livro! Queria um livro com tudo que eu pudesse escrever. Não só minhas dores, mas também minhas alegrias, minha velhice que ainda viria, meus desejos e pesadelos, meus amores. Tinha que estar ali, de certa forma, minha alma e todas as suas nuances, cada segredo (sim, não oculte nenhum!), cada medo e cada ódio, cada gozo.  Um capítulo para cada face minha, ele disse. Deus, seriam muitos! Como fazê-lo? Uma epopeia, de certo. Uma saga com quantos tomos? Então me demorei. Dei ao livro dos livros minha juventude, escrevi-o com toda a tinta que tive, e quando não me sobraram mais papéis, nem caneta, rasguei-me. Escrevi sobre pele, com dedos e sangue. Não apenas me despi, me desmanchei. Transferi-me para as páginas, dei-me por inteiro com essa e todas as vidas que já tive, quiçá com as que virão. Fiz, fiz e refiz! O livro estava pronto. Quilométrico, se as páginas fossem justapostas. Não era a obra da minha vida, era a minha vida em si, transferida para as palavras. Todas as palavras que eu um dia quis dizer e não disse, todas as que eu nunca sonhei conhecer, mas descobri. Meu mundo de sentenças, de acordes, de cores e timbres. Era tudo que eu tinha, tudo que eu era.

Não é o suficiente.

Pediu-me só mais uma palavra. Qualquer uma.

Eu não tinha mais nada para dar. Queria ter lhe dado ao menos um “desculpe” ou um “adeus”, mas nenhuma letra me saiu mais da boca ou das mãos. Tornei-me apenas ouvinte, e de mim mais nada saía. Quis dizer-lhe que era impossível, mas meu olhar não o soube traduzir. Ele me olhou com nojo. Jogou no chão o texto que suas mãos conseguiram segurar. Deu meia volta e saiu da minha presença, como quem desdenha a esmola merecida. O que sobrou de mim depois de tudo que eu dei? Nada. Juntei humildemente as páginas para relê-las algum dia. Precisava delas para conhecer-me de novo, saber de mim quando fui pleno, remontar-me até o tempo em que eu era meu e estava aqui, fora dos textos. O tempo em que eu era palavra não escrita e alma não entregue.

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