O desconhecido

“Eu não te reconheço mais”, eu quis dizer olhando para aqueles olhos de sempre. Como seria possível que as coisas permanecessem exatamente as mesmas para aquele olhar, para aquela pele e aqueles cabelos, mas fossem tão diferentes dali para dentro, nas regiões mais profundas, onde criamos nossos anjos e demônios engaiolados? Ele estava diferente e tudo era fruto de um percurso de mudanças que eu me neguei a enxergar. Demorei demais para saber que ali não estava mais o meu filho, mas um outro que eu não conhecia. Teria aquele novo indivíduo sorrido das minhas piadas imbecis quando a barba ainda não lhe tinha crescido? Pergunto-me se viveria comigo tudo que vivi com o antigo morador de seu corpo. Você tem ainda os mesmos gostos?

“Deixe-me entrar”, sussurraram meus olhos, clamando por alguma brecha na muralha. Mas era inútil. Estava ali uma barreira intransponível, sem falhas, sem fraquezas. “Eu te dei toda minha força”, pensei, como também lhe suguei toda a fraqueza. Sim, aquela fraqueza que vi nos primeiros anos, quando as perninhas nem se sustentavam ou quando os braços não aguentavam quase nada. Fui um bom pai ou me entreguei demais? Eu sei que lhe dei tudo que eu era, e hoje o faria de novo, mas existe nisso um martírio de vida desperdiçada ou de não recompensa… Sinto-me mal por pensar que, talvez, o melhor fosse deixa-lo com o que já me tomou e seguir sem ele.

Não consigo.

“Pelo menos valorize quem eu sou, mesmo sem amor nenhum”, eu quis pedir. Não me importava que não me tivesse amor, tudo que eu queria era que me desse um olhar de respeito, uma reverência de agradecimento por tudo que já fiz. Isso é ser egoísta demais? Eu não me sinto à vontade para pedir amor. Amor não se pede. Posso apenas pedir reconhecimento ou um punhado de honraria que me vem à mente na forma de um abraço, mesmo que tímido, de um beijo, mesmo que forçado. Posso também me humilhar…  Bastaria um toque, do tipo tapinha nas costas. “Toque-me de alguma forma. Perceba que estou ainda aqui”. Falta pouco, meu filho, e logo vou embora.

“Desculpe pelo que te fiz”, isso eu falei, mas soou como ironia. Não era. Por mais que eu não saiba onde se esconderam meus pecados, pedi-lhe perdão de toda forma. Houve algo muito errado no meio desse caminho, uma pedra no sapato que eu coloquei para você, mas, entenda, eu não percebi. Desculpe pelo que te fere, mesmo que não me cause sequer incômodo. Em algum momento eu fui mais eu, num ato falho de quem é humano.

“O que eu posso fazer pra te ter de volta?”, comecei falando, embora não tenha terminado a frase. Ela ecoou na minha cabeça, depois que a fala travou nas primeiras sílabas. “Faça-me sofrer sua dor, me entregue tudo sem parcelas!”, continuei pensando, “Despeje em mim o que for preciso para estar, enfim, vazio”. Esteja vazio. Apague as dores e as memórias, boas ou ruins. Sopre a poeira dos rancores antigos. Deixe-se ser nada por um momento e eu farei tudo de novo, porei ordem na casa – na nossa casa.

Apresse-se em ser você, filho, porque eu também não me conheço mais.

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