A puta e a besta

Ela chegou nua e coberta de sangue. Um ser vermelho e viscoso dos pés à cabeça, com os olhos inchados de tanto chorar. Indefesa. Era tão frágil que não temia ser devorada pela criatura que habitava a caverna, pois sabia, no seu íntimo, que até a morte já seria uma vantagem. Não havia nada a perder.

Entrou na escuridão e avistou a besta deitada. Era enorme como o salão rochoso. A escuridão do submundo, aliada a algumas frestas banhadas pela lua, fazia com que seu corpo imenso fosse apenas sombra com alguns contornos suaves, enquanto os olhos brilhavam redondos. Estavam encarando-a com estranheza. O focinho farejou o sangue no corpo da visita e ele parecia anunciar uma refeição pronta para ser devorada. Levantou-se devagar. A dama ensanguentada e a besta, cara-a-cara, fitando um ao outro no frio da noite. Havia corpos recém-dilacerados por todo lado, havia esqueletos antigos. O cheiro da gruta era tão fétido quanto o dos pelos do animal atroz.

A mulher estendeu a mão lentamente. Sussurrou alguns chiados e não deixou que seus olhos largassem os da besta. Aproximou-se arrastando os pés, como quem dá um passo para o abismo. Estava entregue ao que fosse seu fim, dedicada a tocar o inimigo que logo lhe devoraria o braço. A besta, entretanto, acalmou-se. Havia comido demais, talvez, apenas voltou a se deitar e se deixou ser tocada. Os carinhos vieram tímidos. Os toques estavam sempre cheios de temor.

Todo o medo e o respeito pela besta, contudo, passou na mesma medida em que se passaram os dias e os meses, os anos. Aquele grande amontoado de pelos e dentes, sangue e fúria, agora obedecia aos desmandos da hóspede vermelha. Não era mais vermelha por estar coberta de sangue, mas o era porque vestia então uma túnica da mesma cor. Estava ali o segredo descoberto já nos primeiros dias: a besta respeitava o sangue, honrava-o como honrava a paz dos mortos. Tudo que a mulher precisava fazer para domar o animal era estar de vermelho.

Fez da caverna sua morada. Tomou espaço da besta quando a domesticou. No seu âmago, a mulher sentia que esse era seu propósito: domá-la, e assumiu para si que aquela caverna era seu reino, que aquele animal era seus súditos. Veja bem, uma rainha auto coroada, sob o sangue falso dos mantos vermelhos, controlando a mais feroz das criaturas.

Infelizmente, todo poder corrompe, como é fácil observar aqui. A dama em sangue vendeu-se aos louros da conquista. Montou a besta e saiu da caverna, aterrorizando todos pelo medo da morte. Liberou novamente a besta para a carnificina total, levou-a a campos de ceifa, sorriu ao vê-la caçar. Dominou o mundo dessa forma, controlando o pior da Terra.

Rainha? Não… Embora nascida pura e nua, fruto do sangue de muitos, perdeu seu propósito de domar a besta e fez de si a maior das feras viventes. Prostitui-se pelo poder, pela mentira, pelo ouro. No fim das contas, era puta, vivendo a mentira de um domínio que nunca teve. Um dia o vento soprou o manto, de uma forma que jamais sopraria o sangue. A besta então a mordeu como o faria a qualquer outro. Não houve hesitação, não houve piedade. A besta devorou , no final das contas, aquela que deveria ser sua princesa encantada.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s