O segredo dela

Ela tem um segredo de infância. Perceba em seus olhos pequenos, que dançam no vácuo de um horizonte imaginário. Está ali nas lacunas de um sorriso discreto. Um câncer que se esconde por trás da timidez. Quando a noite chega, com suas luzes gotejadas naqueles postes melancólicos da rua, ela simplesmente abre a janela do quarto e cata um resto de céu no meio dos prédios. Fica sonhando com o segredo ou com nunca tê-lo tido? Só se sabe que vaga, perambula por entre esferas de devaneios como se a vida não bastasse. Digo isso não com um tom de quem ama a vida, mas sim de quem a tem por fardo. Eu noto nos olhos dela que existe ali, nas curvas mais internas da alma, uma amizade com a morte distante. Trata-a como uma amiga que virá um dia, cujo aceno miúdo, há quilômetros de distância, traz consigo um anúncio bom e tranquilo.

Uma pessoa ímpar, ela é. Não é das que se lamentam ou choram sem motivo. Simplesmente vive, passando pelos anos rumo ao nada, sentindo o que lhe trouxerem para sentir. Não busca o novo, não mergulha de cabeça. Molha apenas o calcanhar nas águas, como um Aquiles invertido, mas nunca mergulha no que quer que seja. Sim, tenho vontade de acalentá-la, perguntar que memória a afeta tanto, saber que segredo é esse, mas não ouso romper-lhe a bolha. Sei que ela não diria. Esse tal segredo, amigos, é como uma serpente criada cheia de mimos. Um demônio encantador que lhe roubou a vida, mas que, ao mesmo tempo, desperta nela uma paixão incomum. Não a julgo. Afinal, temos todos nossos pequenos fardos amados, nossos medos preciosos.

Lá vai ela pela ladeira, num passo arrastado de quem segue e para. Moça, sente cá na minha sala e pode falar o que a incomoda. Não sou de dar conselhos, eu garanto, e tudo que eu disser pode ser jogado fora. Escuto. Apenas ouço tudo que lhe diz respeito, as confissões de sua língua aprisionada, e faço isso por um lado para vê-la bem, e por outro para matar minha curiosidade. Qual é o segredo?

Ela nunca falará. Também jamais perguntarei. Ficamos eu e ela, tropeçando um no outro, colidindo olhares descuidados, imaginando uma conversa. Ela é o meu segredo, penso. Minha vontade de desbravar almas, como nunca desbravaram a minha. Um navegador inavegável que sou, sedento das águas turbulentas daquela mulher de vazios. Digo para mim mesmo que a entendo em cada não vontade de viver, porque também já estive lá. Ou estou. Moça, sente cá um segundo e escute meus segredos. Talvez sejamos uma coisa só.

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