Trinta e poucos

A festa surpresa estava marcada para começar às 20h. A família já tinha chamado os amigos mais próximos e todos se aglomeraram na sala escura, ao redor da mesa com alguns ornamentos discretos. A idade dele exigia que houvesse certa moderação. Os pais eram os únicos sentadinhos no sofá, porque já passavam dos setenta e cinco e estavam cansados demais para esperar de pé. “Ele chegou!”, sussurrou a prima que abanava o ar com as mãos ansiosas pedindo que diminuíssem o barulho. Silêncio total. O sobrinho tossiu sem querer e o irmão logo tapou-lhe a boca. Era aquele minuto tenso de expectativa quando se trama na surdina. A chave rodou na fechadura e logo a maçaneta mexeu.

No minuto anterior, entretanto, ele vinha pensando nos seus trinta e poucos. Que dia comum aquele… Era como se a juventude celebrasse os anos com uma voracidade de quem tem fome de festa! Por outro lado, com o passar do tempo os aniversários tinham ficado mais contidos e discretos. Não fazia mais sentido comemorar o tempo, numa desproporção de benfeitorias com quem tantos desagrados tinha trazido. Sim, vieram nesses anos a experiência, a placidez, toda uma soma de calmarias da alma que a juventude não permitia ter, no entanto outras coisas mais importantes foram arrancadas.  Ele já não sentia o coração bater forte nas pequenas coisas, não se apaixonava por ninguém, nem mesmo conseguia criar novos amigos. Fechou-se por puro comodismo, uma conformidade com o que já se tem. Perdera em alguma das décadas passadas aquela adrenalina de viver com intensidade cada emoção, cada descoberta. O “eu te amo” virou “bom dia” – e como foi difícil dizê-lo na primeira vez! – o sexo virou rotina – e o coração já não pulava pela boca nos primeiros toques da noite. Naquele segundo que antecedeu a porta aberta ele pensou na vida como estava, em como havia se tornado simples demais. Marasmo de horários e compromissos, de pessoas desvendadas e emoções conhecidas. Não que fosse ruim, era apenas menos do que já fora um dia.

Quero me ater ainda nesse tal segundo que antecedeu a festa, dizendo que também pensou na família e nos amigos de uma forma tão contemplativa que julgava tê-los colocado num palco italiano, assistindo quieto seus movimentos coreografados ao longo dos últimos anos. Estavam todos onde ele supunha que estariam, desde quando projetou seus caminhos há muito tempo atrás. O irmão casou e se formou. Tem um filho lindo que parece com ele, mas tem o gênio totalmente oposto. Os pais estão velhinhos, embora ainda companheiros um do outro, esperando que o primeiro se vá para que o outro siga logo depois. Tios, primos, amigos e amigas… Todos cumprindo o roteiro.

Tudo isso o fez parar. A chave rodou, sim, na fechadura; a maçaneta virou, mas a porta não abriu. Ele deu meia-volta e foi até o carro. Largou a casa aberta para quem quisesse entrar e pegou a estrada. Havia magia na BR escura e isso era algo que ele precisava intensamente. Tudo agora era racional demais. Foi pra outra cidade, como quem lembra de um compromisso inadiável, e talvez fosse mesmo isso: um compromisso com o que nem ele sabia o que era, com o não planejado. Lá haveria um rumo novo – tedioso ou não – quem pode dizer? Haveria possiblidades que ele não sabia quais eram.

Então pensou que talvez tivesse, por impulso, encontrado o erro na sua jornada de trinta e poucos. Ele simplesmente domou a vida. Logo ela, que é como cavalo selvagem, que corre pelo prazer do vento na crina, que se revolta quando tentam montá-la. Por alguns momentos, naquela estrada, ele foi cavalo selvagem. A juventude subiu-lhe à superfície da alma, como que sem fôlego, puxando o ar que há muito não tinha. Era curioso notar que ela ainda estava ali.

Em sua casa, todos ficaram sem saber o que celebrar. Eis a grande surpresa da noite. O bolo, a música engatilhada, os balões e as bebidas perderam o sentido. Por que a festa deveria acontecer sem ele? O que haveria para comemorar?

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