O pátio vazio

Tudo pronto para a apresentação de dança do colégio. O mês de junho trazia consigo as memórias de uma infância que eu havia esquecido. Senti o cheiro da pamonha feita em casa, na panela velha e gigantesca que minha avó guardava no quartinho dos fundos e que, raramente, era trazida à tona. Não me deixem devanear, o cheiro me veio só na memória, como um resquício da idade pouca que já não tenho mais. Lá, no pátio, o cheiro vinha mesmo era da mesinha de café para os pais e dos fogos de artifício que estavam sendo estourados para anunciar o início das quadrilhas. Pólvora, café e terra molhada. A chuva de junho havia passado para dar a benção aos moleques paramentados e a festa iria começar em alguns instantes.

Dei-me conta de três ou quatro crianças correndo no pátio vazio. Ora em círculos, ora em trajetórias malucas, elas corriam às gargalhadas. “Por que criança insiste em correr sem motivo?”, eu pensei. Era uma constante. Crianças e pátios não davam em outra coisa que não uma correria louca e feliz, como se fossem perseguidos e gostassem disso. Tive vontade de dizer para os pais retirarem os pequenos da algazarra, porque a festa iria começar, mas me peguei pensando que não… A festa já havia começado. Era aquilo mesmo, sem música ou coreografia. Era só correr e rir.

Quando foi que perdemos essa vontade desvairada de correr e sorrir sem motivo? Em que momento, me pergunto, deixamos de lado a vontade de expandir, de crescer, e assumimos o lado oposto, de diminuir, de se esconder? Começo a lembrar que eu também já fui assim. Nos tempos da pamonha, do quintal, da casa da avó. Fecho os olhos para lembrar, para me sentir de novo ali, naquela felicidade de quem não sabe o que é problema, de quem nem percebeu que se morre ou se sofre na vida. Se não sabemos da morte, somos imortais, eu penso… A ignorância embebida de ingenuidade é uma dádiva.

Eu já corri sem motivo pelo prazer do vento no rosto. Já senti que chuva não era sinônimo de lençol e cama, mas sim de banho e festa. Eu era o próprio sol, posso dizer, debaixo de qualquer tempestade. Escavo-me, mergulho em mim e no meu tempo passado. Lá nas profundezas abissais e escuras de um eu mórbido há de se encontrar ainda um baú brilhoso cheio desses pequenos tesouros. Contemplo-me naqueles dias.

Não procuro responsáveis por tanta mudança, afinal, somos todos a soma de pequenas coisas, transmutados em monstros gigantes de pedra ou no grotesco acúmulo de fragmentos desimportantes. Pequenas partes que nos pesam no final das contas. Está aí o segredo disso tudo: o peso.

Deixei as crianças correrem. Sorri com elas. Não havia nada a ser carregado ainda, não havia desculpas para não correr. O passarinho de ossos leves voa, enquanto nossos ossos fortes nos prendem ao chão. Deixem que elas nos ensinem como deve ser. Chegará o dia em que aprenderemos com elas e não elas conosco: como ser voo e não rastejo, ser sorriso e não choro, como ser vento no rosto e não pátio vazio.

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