Luísa

A bolsa estourou por volta das seis horas da manhã. Minha esposa não conseguia esconder de mim aquele olhar de felicidade e medo e eu não conseguia demonstrar outra coisa que não pavor. A equipe já estava a postos. A pequena piscina de plástico estava montada na sala. O dia não poderia ter amanhecido mais lindo, disso eu lembro; com um céu azul e limpo – sem uma nuvem sequer. O sol caía pelas janelas como que acariciando-nos e as árvores lá fora farfalhavam nos seus cochichos matinais. Era uma casa de campo, longe de tudo e todos, porque foi isso que escolhemos para o parto. Esse era um momento só nosso e a pequena Luísa merecia essas boas-vindas.

A casa dos meus avós era quase toda de madeira, num estilo incomum para nossa região, e tinha até uma lareira que nunca foi acesa. Havia uma memória europeia naquele lugar que eu relutei em aceitar na adolescência, porque não fazia sentido para meu orgulho nacional. Depois de uns anos gostei. A idade sempre nos faz aceitar o que a juventude repudiou. Acabou sendo minha grande parte na herança, um lugar onde eu conhecia o que era a paz ao menos uma vez por mês, quando fugia da cidade. Árvores e mato, era tudo que havia ao redor. Os sons vinham dos pássaros e dos insetos (esses sim, um grande motivo de minha fúria constante por ali). Estar naquela casa, no meio de tanto verde, de certo me rejuvenescia. Eu gostava de sair com pés descalços pelos arredores, sentir as pedrinhas, a umidade, os grãos frios. Minha mulher gritou.

A equipe tinha cinco pessoas, a piscina dois metros quadrados. Toda a paz daquele lugar, de repente, havia desaparecido. Ela entrou nua na água e as contrações estavam vindo. O sol já não estava tão gentil. As árvores espiavam curiosas e quietas. Onde haviam se metido os malditos passarinhos?! Duas enfermeiras da equipe sorriam e diziam palavras tranquilizadoras, o resto de nós estava concentrado no momento, imersos naquela tensão costumeira dos partos. “Segura minha mão”, minha esposa falou. Segurei.

Do lado de fora, a mata me chamava. A paz estava lá fora, escondida na parte escura do bosque, naquele cantinho onde o sol nem chegava e um córrego surgia sempre que a chuva passava por ali. Que vontade de fugir! “Segura minha mão”. Eu ainda estava ali.

Foram horas! E eu pensei que partos eram como nos filmes e se resolviam em dez, quinze minutos. “Luísa está chegando!”, comemorava a enfermeira feliz, mas meu peito não se abria para recebê-la. Minha esposa estava sofrendo, embora houvesse no semblante dela algum tipo de realização que eu não compartilhava. Havia dor, mas ela estava vivendo uma experiência que eu nunca compreenderei. Luísa para mim era brutal, estava rasgando-a, egoísta na sua inocência de quem não sabe onde está nem o que faz. Eu não podia estar sentindo aquilo, porque minha filha não era a prioridade das minhas compaixões. “Eu preciso tomar um ar”, confessei. Creio que eu estava pálido, porque todos concordaram. “Amor, volte logo, eu preciso de você aqui”, minha esposa sussurrou. Concordei.

A porta da casa abriu para mim como um portal para outro mundo. Joguei os sapatos na varanda e saí, apressado, para o cantinho escuro. Terra entrando nos dedos, pedras me açoitando o calcanhar, vento ainda frio e sol quente me empurrando para a mata. A mata! A mata! Eu precisava dela como uma droga, uma fuga de mim mesmo e daquilo tudo. Era meu deus verde e esparso, silencioso como todos os deuses, esperando minhas preces para que me devolvesse as energias. Cheguei no meu recanto de sombras. O córrego não estava lá, mas havia deixado o rastro de suas águas tímidas. Respirei fundo.

Procurei dentro de mim o que estava errado, mas não achei. Não havia motivo. Foi quando me deixei aberto. Enfiei as mãos na terra, ouvi os pássaros que cantavam ao longe. Os insetos, até, aceitei-os sobre meu braço e pernas. Fui me enterrando e virando pedra, fui sendo mata. Onde estava o problema, se não dentro de mim? Luísa talvez estivesse me chamando para fora, para expandir-me além do meu corpo. Eu poderia ser maior que eu? Daria conta de ser mais do que eu já havia aprendido a ser? Eu podia ser horizonte quando estava naquela casa, no meio da natureza. Eu era a história de meus pais e avós, era mundo, era toda forma de vida, mas com um bebê no colo, quem eu seria? Deixaria de ser tudo isso ou eu mesmo, e seria ela. Ainda menor, ainda mais frágil, embora fosse também maior que o universo e o tempo. Quanto paradoxo! E eu não sabia entendê-lo, teorizá-lo, colocá-lo dentro das minhas regras e justificativas. Esse terrível medo de mudar…

No meio do som delicado dos pássaros, ouvi. Luísa chorou. Entendi que viemos para cá por minha causa. Eu precisava também ser parido pai e nascer da terra, das plantas, do córrego. Também chorei. Fomos ninados, então, pelas mães emocionadas, e, enfim, foram cortados nossos cordões umbilicais.

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