Três olhares

A primeira vez que aconteceu eu tinha apenas oito anos. Trovão adoeceu e ficou deitado no cantinho de parede o tempo todo, ao longo de vários dias. “Tá morrendo”, as velhas diziam quando batiam o olho no animal. Naquela época não se procurava ajuda veterinária nessas situações. O cachorro morria porque chegava a hora, e a gente entregava o amigo pra morte – com pesar, mas, acima de tudo, gratidão. Era mais triste que hoje, quando se tem a chance de fazer o que for possível pra salvar o bichinho. Estava lá, em cima dos trapos que chamávamos cama, quase cheirando a parede que ao longo de treze anos esteve ao seu lado. Ele suspirava às vezes, tentava andar, mas caía deitado. Lembro-me de ter torcido para que ele se fosse logo de uma vez e chorei uma madrugada inteira porque deixei esse pensamento me ocorrer. Ele estava velho, eu novo. Tudo era velho ao meu redor, na verdade. Meus pais, a porcelana da minha avó, o reboco da parede da sala, que estava aberto como uma ferida mortal numa casa moribunda. Vez ou outra eu ia até o reboco e cutucava a terra da parede, que caía fina nos meus pés. Eu não conseguia ver, mas aquilo era sangue, e eu um torturador. No dia em que Trovão morreu eu havia aberto mais uns três centímetros na parede com uma colher. De alguma forma eu sentia que era o dia… Acho que fiquei tenso. Sentei do lado dele e só fiquei ali parado, olhando. Foi quando aconteceu. Ele me olhou de volta. A barriguinha subia e descia rápida, denunciando algum nervosismo, mas os olhos estavam tranquilos. Aquele olhar… Meu Trovão morreu sem estrondo, num silêncio de paz. Pude vê-lo indo embora lá no fundo da pupila, perdendo-se lá dentro. Nos últimos segundos ele me olhou com um amor que eu não pude decifrar. Ele soube me dizer o que era preciso, mas eu não soube responder no mesmo idioma, então chorei. Conheci o olhar do adeus, do obrigado, do até logo, e isso doeu.

A segunda vez aconteceu em uma situação totalmente oposta. O nascimento da minha primeira filha. Lá vem o tempo mais uma vez, fazendo chacota de como somos ínfimos… Pulei algumas linhas e já se foram vinte anos. Lara nasceu numa quinta-feira, às 22h 45min. A primeira vez que a vi de olhos bem abertos foi no apartamento do hospital e já havíamos sido apresentados. Aquela pessoinha empacotada abriu os olhos e me fitou sem maiores agitações ou qualquer sombra de choro. Apenas me olhou, profundamente, e parecia também estar me declamando algum poema angelical. Pela segunda vez na vida um simples olhar silencioso me fez chorar e eu sequer compreendia o porquê. Procurei os laços que havia entre Trovão e ela e tudo que me chegou à mente foi fragilidade, pureza. Procurei também as diferenças e pude pensar em morte e vida. O que havia em comum nesses dois olhares que me arrebataram para um estado divino de diálogo e contemplação? Eu não sabia responder, mas queria que acontecesse novamente. Naqueles momentos de olhares de alma, eu podia entender minha própria essência, podia ser tão profundo quanto eterno.

Até que aconteceu a terceira vez. Hoje. Há poucos minutos. Deixe-me convidar o tempo aqui novamente, porque já estou nos meus setenta e dois anos. Um velho, que, como todo velho, já não se surpreende com a vida e nem descobre mais nada de si. Peguei-me olhando um quadro no museu. Óleo sobre tela, século XIV. A tinta estava rachada sobre o tecido e os contornos haviam perdido contraste, embora tenham ganhado a elegância da textura quebradiça sobre as pinceladas cuidadosas. Tratava-se de um homem sentado numa cadeira luxuosa (um trono?), com seres celestiais ao seu redor. Talvez algum rei.   Ele tinha anjos sobre a cabeça e a luz divina lhe abraçava. Ele tinha ouro e comida, como se via na mesa farta do canto da tela. Ele tinha saúde e poder. Mulheres. De toda forma, ele não ria. Só me observava, cá fora da tela, como se dissesse “me deixa ser você”. Quando eu acho que entendi o que aqueles dois olhares significaram, chega a arte e me sacode novamente… Chorei. Sim, com um olhar sobre tela, de pincelada rachada, feita há séculos atrás.

Não era vida ou morte, nem fragilidade ou inocência. Não era tristeza ou alegria, futuro ou passado, nem tampouco bom ou ruim. Não era a língua dos anjos ou um idioma que eu não conhecesse. Era tão somente aquilo que somos todos, filhos da beleza na busca do transcendental. Era, talvez uma olhadela no sentimento puro e materializado, ou um rasgo descuidado no tecido da realidade. Aqueles três olhares foram, de certa forma, como olhar pela fechadura, contemplando outro mundo lá fora. Um mundo que não se toca. Um outro lugar, ao qual pertencemos, construído sobre essência, sentimento e beleza, e não sobre as ilusões de tudo que passa, morre e envelhece.

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