O nariz vermelho

O picadeiro estava iluminado com uma luz quase comum, sem foco. Neste pequeno circo, a magia estava mais na nossa mente que nas parafernálias de palco. O cheiro de pipoca dançou nas nossas narinas, que também percebeu a terra do chão, a ferrugem dos bancos velhos, a noite. Antes da grande apresentação, um farfalhar da lona velha e rasgada: era a lua de espreita pela fenda maior. Curiosos, ela e nós, seguimos esperando.

A música alegre começou. Alguém virou o poste de luz de forma desajeitada, quase derrubando-o. As crianças riram com aquela ânsia de riso por qualquer razão. Pediam por ele. O palhaço.

Sapatos largos e caricatos, fazendo curva. Suspensórios, camisa de botão com desenhos infantis. Peruca, maquiagem, luvas, gravata. Ele era todo circo e o circo era ele. Ninguém percebeu que esquecera o nariz vermelho. Crianças riram novamente e ele não fez nenhum esforço para isso. Um movimento cartoonesco e as gargalhadas vinham como uma lufada de vento sacudindo a lona. Então ele parou.

Olhou para nós e deixou apagar seu riso e o brilho no olhar. A música cessou. O silêncio das crianças incomodava mais que a figura colorida inerte sob a luz âmbar. Tirou do bolso uma toalha e limpou o rosto devagar, embora com certa rispidez. Jogou fora a peruca. Chutou os sapatos. O que estava acontecendo ali? Ninguém o deteve. Seria parte do show? Ninguém também se levantou da plateia.

Desceu os suspensórios. Abriu a camisa de botão. Agora pude ver que os desenhos infantis eram nuvens e carneirinhos. Desceu as calças. Não tinha graça. Não houve quem quisesse rir do palhaço nu. Estava lá de pé, tão homem quanto nós que o víamos sem reação. Tinha braços e pernas com pelos iguais a mim. Éramos tão iguais naquele momento…

Alguém sussurrou que o viu chorando. Outro, ao fundo, perguntou se ele estava louco. A verdade é que o palhaço era, ali, um homem nu sob o holofote. Seria palhaço ainda? A lua saiu da sua fenda no teto e a lona farfalhou rápida em resposta. Ele continuava parado, tão natural com sua nudez quanto um bebê recém-nascido.

A pureza do palhaço não era a nossa. Ele podia estar bem naquela situação, mas nós estávamos cada vez mais constrangidos, apesar de o choque nos deixar presos nos bancos velhos enferrujados. Alguém tossiu. Sempre tossem.

“O nariz!”, murmuraram nos bastidores, “o nariz!!”. Então jogaram-lhe a bolinha vermelha. O palhaço pegou-a no ar e esticou o fino elástico por trás da cabeça. Agora sim, tinha a cara de palhaço! O riso veio tímido, a começar pelas crianças, claro. Depois os adolescentes. Depois nós. Rimos todos. As peripécias e malabares continuaram normalmente, ao som de nossas gargalhadas. O curioso, no entanto, é que lá no palco ele também ria aos montes olhando para nós. O palhaço nu achou em nós alguma graça também e, dessa forma, estávamos nos entretendo mutuamente. Pena que ele tinha o nariz vermelho, nós não.

 

Imagem: Palhaços, 1957 – Cândido Portinari.

 

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