Os pássaros sobre o muro

Quando me dei conta, estava tomando meu café da manhã todos os dias de frente para o muro. Uma parede velha, de tijolos aparentes e alguns buracos. Nada de especial. Separava a calçada de um terreno baldio cheio de tralhas e deixava a rua mais apresentável, sem falar no favor que fazia ao não deixar aquele lugar aberto a todo tipo de ocupação como uma boca de fumo ou desova de cadáveres. O muro me fazia sentir segurança.

Percebi que eu estava sentando, todas as manhãs, na varandinha de minha casa, enquanto fazia o desjejum. Lá tenho uma pequena mesa de madeira para apoiar meus chás e cafés e o cheiro da rua que chega manso às seis da manhã é sempre um convite para um bom dia que segue. Meu lugar, minha mesa, meu café… E o muro.

O que havia de tão especial naquela parede eu não sei. De certa maneira, encarar o muro me despertava para pensar na vida e filosofar aqui com minha própria alma, porque é assim que acontece na minha cabeça: retiro dramas existenciais da caixinha de palitos de dentes e o sentido da vida se torna claro quando vejo insetos carregando comida velha. Logo eu, acostumado a saber que devaneios me afloraram as imagens mais banais, estava ali, parado, em choque por perceber que estava namorando um muro velho e sem qualquer motivo.

Foi então que eles chegaram. No primeiro dia não me pareceram querer ficar, mas foram ficando, ficando e ficaram. Um pássaro com um mal gosto de cor que só vendo. Meio castanho, meio cinza. Bico pequeno e canto irritante. Dois, três, quatro. Fizeram um ninho em alguns poucos dias e eu os observei chegar a cada vôo rápido, trazendo consigo algum tipo de graveto sob a mira dos olhos miúdos. Eram uma família, nos moldes que eles deveriam entender, e para eles eu talvez fosse Deus, olhando tudo acontecer e permitindo o movimento.

O muro tinha, então, um propósito. Não se tratava mais de separar o terreno baldio, mas de amparar o ninho de pássaros feiosos. Era um muro feio também, não podia reclamar. Só daí veio a beleza, quando os dois elementos horrendos se juntaram em uma composição perfeita de cores e traços.

Tomei um gole de café. Sorri. Ora, ora… O muro estava esperando os pássaros para ser completo, e eu esperando sua plenitude para entendê-lo. Fomos vazios um do outro nesse meio tempo, esperando algum sentido ou beleza, alguma filosofia ou lição. Entretanto, agora vejo que o muro cairá em breve. Tem aqui e acolá algumas rachaduras, como também algumas pedras quase soltas, e um temporal está se espreguiçando no céu logo acima. Em pouco tempo terá ido o muro e os pássaros na correnteza que brotará do asfalto, mas até lá, deixo a pintura intacta e contemplo. Eu, como Deus que sou, reservo-me a apreciar o que se fez belo, pelo tempo que durar.

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