Silêncio de mil palavras

Minha boca não abriu. Não disse. Não protestou ou justificou. Calou-se. Nas outras vezes, quando a resposta ainda vinha, ela batia nas paredes com força e morria no chão, agonizando depois do choque. Responder, ou não, dava no mesmo. Os únicos resultados eram sofrimento e perda de tempo, então, retrucar deixou de fazer sentido.

Ela fala alto, como de costume. O dedo em riste e os olhos fumegando. O motivo? Talvez a toalha na cama, ou as dívidas de jogo. São muitas possibilidades para um mesmo fim. Não tiro sua razão, como ela me tira a justificativa. Escuto. Dois ouvidos bem ativos e uma boca selada me contemplam nesse momento. Em algum lugar de mim, ouço a voz que me chama de covarde. Aquele ser demoníaco que todos carregamos logo abaixo do pulmão, que vez por outra nos acende uma fogueira no peito. Foi bem o que ele fez. Ateou-me fogo por dentro, mas minha boca não abriu. As chamas me consumiam, mas calei. Abrir a boca, naquele instante, seria baforar as labaredas que nos consumiriam ainda mais.

Diante do meu silêncio, ela parou. Ainda estava furiosa, claro, e queria me ver também da mesma forma. Chutou minha caixa de papéis, que já estava tímida na quina do quarto. A conta de luz pousou no chão, enquanto eu engolia a fumaça das minhas chamas secretas. Olhamos um para o outro.

Ela era a fúria que eu odiava, eu era o silêncio que lhe causava repulsa. Dois estranhos.

Quando ela me perguntou se eu não ia falar nada, consegui abrir a boca. Língua, dentes, lábios, prontos para vomitar um texto de mil palavras, mas tudo que me saiu pela garganta foi um fôlego trôpego, uma expiração de cansaço. Cansado. Era exatamente isso que traduzia minha redação não lida.

Nesses momentos, quando tudo que poderia ser dito soa repetitivo, o próprio corpo cansa. Não quer falar, não aceita debater. Apenas cala, como quem diz “chega”. Olhei nos olhos dela e esperei que me lesse, porque já tínhamos intimidade para isso. O que eu falei estava no ar, pairando invisível, dançando entre as cortinas, ondulando entre a louça no escorredor de pratos e os lençóis na cama mal forrada. Estava tudo ali, no nosso lugar, no nosso espaço, nela. Minhas palavras estavam escritas na pele daquela desconhecida, uma tatuagem cursiva, delicada, com pedidos de paz e declarações de amor.

Apenas saí de casa e deixei ali as palavras. Até hoje são sua companhia, e a acusam de toda a culpa do fim, embora eu as reprima por tamanha responsabilidade. Erramos os dois.

Hoje sigo em silêncio, porque as palavras deixei com ela. Estou indisposto para falar novamente, para ouvir de novo. Sigo feliz no zumbido calmo de quem não tem o que replicar, de quem só canta e assobia a solidão bem-vinda que a liberdade traz.

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