O lado de lá do mundo

Pela janela de vidros limpos, o horizonte é um convite. Enxergo-o pairando entre os soluços da serra e os saltos dos prédios. Tímido. Está ali nas brechas entre montes e concretos, como uma criança que esconde o corpo, mas espia descuidada, revelando o olhar sorridente.  Vejo-o aberto ao que está além. Um caminho cheio de ventanias e sol, distante de meu claustro. Onde começa a viagem para o lado de lá do mundo?

Enquanto esta torre me protege, também me limita. Entendo, vagarosamente, que há tristeza na segurança, pois estar seguro é privar-se do inesperado; e sinto-me em abstinência daquilo que não posso controlar. A torre faz alguém em mim gritar um “basta!”, deixando-me ansioso por contiguidade de almas. É preciso deixar algo fluir, ser o que tem que ser. Abandonar todo e qualquer controle. Mas controle sobre o quê?

Mecanizado. Sistemático. A torre me fez seguir uma cartilha sem autor, sem lógica, em desacordo com minha própria essência. A   janela de vidro impecável, entretanto, parece me dizer que chegou o momento de romper o padrão, a lei, o fardo.

Da minha prisão de seguranças máximas, eclode minha liberdade sufocada. Que me receba bem o vasto horizonte a céu aberto! Deixo livre tudo que controlei um dia. Deixo tudo apenas ser, e recebo os louros e açoites de viver com o que vier. Que tudo seja vendaval e sol, rumo a algum lugar onde eu seja pássaro desbravador.

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