Para além do gado magro

Tudo é pó e sol quando chega setembro. As cabras e os bodes procuram a sombra da casa quando a luz se estica na serra. Também ficam debaixo da algaroba quando o calor está a pino, torrando juízo ao meio-dia. O som constante é do vento, quando ele vem, do sinete no pescoço dos bichos. O resto é eco do que sobra, das palavras ditas de repente, de um arrastado de chinela.

O cercado de estacas de madeira dá os contornos do sítio, mas serve de coroa pra casa velha no centro. Não é grande, mas parece imponente. Talvez por remeter a um estar à força, a uma bravura de quem permanece em pé diante da seca. Os dois meninos da casa sabem que ali se chega pela estradinha de terra, mas isso ainda é, de certa forma, um mistério. O que há além das pedras perto do poço? Pra onde se pode ir, caso se tome o prumo de seguir direto, sem freio e sem descanso, pra além das terras do gado magro? Fizeram então uma promessa um ou outro: um dia iriam seguir pela estrada e se perder no mundão que tivesse lá fora. “Vamo ganhar o mundo”, diziam um ao outro, e essas palavras foram se cristalizando ao longo do tempo. Não entenda que isso era um desprezo pelo sertão, era apenas um apego pelo que viria além dele.

Foi mesmo numa manhã de setembro que a história começou a acontecer. Um caminhão parou na porteira e buzinou. Um homem de bigode largo desceu sem camisa e deixou a porta do carro aberta. Os dois meninos olharam com medo, sem saber ao certo como reagir. O senhor insistiu e bateu palmas. “Cadê Bertinha, menino?!”. O mais novo apontou pra dentro de casa. O mais velho gritou “ô mainha!” e ficou encarando o viajante. Dona Berta saiu arrastando a chinela velha. Olhou de longe, enquanto enxugava as mãos num pano de prato já gasto. Foi até o portão, com passos cada vez mais lentos. De longe, as crianças assistiram a briga. Umas tapas que viraram conversa, que virou silêncio, que virou um abraço choroso. “Quem danado deve de ser?”.

O intruso ficou na casa o dia todo. Tomou café, comeu do cuscuz e bateu o pé pras galinhas. Havia um novo homem na casa e os meninos não gostavam disso. “Nunca vi chegar na casa dos oto e bater pé pras galinha”. O sujeito era mesmo enxerido e atrevido, porque às vezes parecia dono da casa. O pior era que a mãe deixava. E foi deixando… No terceiro ou quarto dia, a conversa aconteceu.

– Arimatéia não é só um amigo. – Disse dona Berta enquanto servia a sopa sob a luz de dois lampiões de chama fraca. O som do líquido revolvendo da concha para a cumbuca foi um detalhe que ficou na mente dos seus filhos até o fim. – Ele é pai de vocês.

Pra quem nunca teve nada além de um teto e uma mãe taciturna, ter um pai na cozinha e um caminhão na porteira foi uma revolução. Reagiram de formas totalmente opostas. O mais velho deixou vazar uma risada, como se tivesse entendido a piada, até que percebeu que era tudo conversa séria. O mais novo agigantou os olhos e parecia estar vendo assombração antes de largar um “oxe” sussurrado. Depois da palavra e do riso, silêncio. Berta e Arimatéia tinham mesmo vivido um amor nas antigas e ele saiu pelo mundo, viajando com o caminhão, e nunca mais voltou. Os meninos eram muito pequenos e naquele tempo ainda tinha Zuleide viva pra ajudar nos afazeres do sítio.

Devia ser genético, então, aquele desejo dos garotos de sair pelo mundo. A mãe sabia tanto que acabou perdoando o marido. Esses anos todos vendo os filhos sonharem com a estrada fez ela entender que o pai realmente precisava ir e se perder pelos asfaltos de outras terras. Era uma necessidade, mais que um desejo. Foi contando as histórias do mundo além do gado magro que ele ganhou a confiança dos pequenos. Aos poucos foi falando do mar e das represas, de como tinha água no mundo. Falou das cidades grandes e das pontes, dos prédios e metrôs. “Tem gente demais. Rodando embaixo da terra feito tatu, voando por cima da cabeça da gente feito carcará”, ilustrou, “o mundo tem de tudo”.

Quanto mais ele falava, mais os dois se encantavam. O sonho de ganhar o mundo parecia estar acontecendo. Um dia Arimatéia ia voltar para as estradas, e já havia dito, em uma das conversas, que podia levá-los no caminhão. Dona Berta não gostou da ideia, porque temia que o marido sumisse de novo e a deixasse sozinha para sempre, mas, por outro lado, sabia que os filhos precisavam disso. A conversa durou alguns dias, até que a permissão foi dada, contanto que eles voltassem, no máximo, em dois meses.

Viagem marcada. O mundo estava à espera. Foi a melhor forma de aproximação que Arimatéia conseguiu imaginar. Teria sido bastante eficiente, se a vida fosse assim previsível e os planos da gente fossem seguidos à risca pelas mãos de Deus. Não são.

Quando o menor adoeceu pensaram que era uma gripe besta, mas aí veio uma tosse estranha, uma fraqueza nas pernas. A cor do menino mudou e aquela aura de que tudo se resolvia no chá de limão com alho se foi. Arimatéia chegou a ir até a cidade mais próxima e trazer um médico, mas as notícias não foram boas. Ficaram de conseguir um quarto num hospital, mas ele tinha que esperar. Nesse meio tempo, a viagem pro meio do mundo tinha que começar. Não dava mais para segurar o caminhão parado por mais tempo.

– É uma decisão só tua, menino. – o pai disse ao filho mais velho, enquanto o outro delirava na cama. – Tenho que ir, mas tu vê aí se quer vir comigo. Teu irmão fica.

O mundo estava chamando, mas seria justo ir sozinho? A promessa que eles haviam trocado foi de partirem juntos, mas agora a situação exigia algumas adaptações. E se o caminhoneiro repetisse a ausência de tantos anos que já havia deixado na última vez que partiu? Sem o filho, ele podia ir embora de vez e nunca voltar, com ele havia a esperança do retorno. A cabeça do rapazinho estava um turbilhão só.

– Eu vou. – Decidiu de repente. Pareceu não ter pensado no que dizia, porque seus olhos estavam fixos na cama, sem reação alguma. – Vou com o senhor.

– Então a gente sai amanhã cedo.

Dona Berta olhou de canto do olho pro filho. Nem triste, nem raivosa. Foi um olhar de quem confia, mas ao mesmo tempo acusa.

O caminhão levantou poeira na estradinha quando o relógio marcou exatos dez minutos passados das cinco horas da manhã. Foram embora deixando o pequeno doente e a senhora com olhos marejados. Suas lágrimas eram muralhas, como sempre foram, nunca represa rompida. Durante todos os dias seguintes, ela foi forte o suficiente para carregá-lo nos braços até o banheiro, para ir andando até o poço e trazer água no balde, para cuidar dos bichos e das poucas plantas que ainda rendiam alguma coisa. De alguma forma, ela sabia que fazia o possível, mas não seria o bastante.

O pequeno perguntou pelo pai no primeiro dia, mas a dor visível aconteceu quando perguntou pelo irmão. Depois disso foi só silêncio, gemido e tosse. Falava o indispensável e choramingava de vez em quando. Ela nunca soube se era choro de saudade, de decepção ou de cansaço. A rotina era um fardo para ambos.

Quatro dias depois da partida do irmão, ele abriu os olhos e viu algo diferente no quarto. Havia cordões pendurados nas madeiras do teto, logo abaixo das telhas. Eram muitos. Dezenas espalhados pelo aposento. Na ponta de baixo, cartões postais estavam presos, oscilando lentamente. Próxima à cama estava a torre Eiffel, vizinha às pirâmides do Egito. Mais pra perto da porta, o Rio de Janeiro se espreguiçava sobre as curvas do corcovado. O mar! Ali estava o mar de alguma praia belíssima, com águas azuis, bem em cima da bacia com a toalha molhada. Eram vários recantos do mundo, pendurados em barbante de feira, ocupando todo o quarto. Ao lado da cama, seu irmão mais velho o encarava com um sorriso.

– Num disse que a gente ganhava o mundo junto? – Ele falou baixinho.

– Isso num é o mundo. – Respondeu com a voz embargada e fraca.

– Claro que é, bicho besta. O mundo cabe todinho no quarto de mãe.

Do lado de fora da casa, a rasga-mortalha cantou pela primeira vez. Não demoraria para que cantasse de novo e de novo. Toda a chuva do mundo podia ter caído no mês de outubro, mas o sertão não floresceria. Fosse a água que fosse, o verde do mato não ousaria sair para encarar o sol. O mundo, lá fora e distante, continuava o mesmo. Pessoas ainda corriam pra cima e pra baixo, debaixo da terra e bem alto no céu. O mar e as pontes, as cidades e monumentos, todos alheios ao quarto na casa de dona Berta. O sertão, no entanto, estava de luto. E esse era o mundo que importava.

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