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A Loucura de Jara

A Loucura de Jara

Trecho do capítulo I do livro “A Loucura de Jara”:

I

Eu estava ofegante. A mata escura assomava diante de mim e não vinham à minha mente sequer palavras de desespero. Queria ter gritado, saltado minhas veias em um grito frenético de louco. No entanto, o que eu fazia era andar. Um pé após o outro, lento tal zumbi esvaído da vida de outrora.
Éramos só eu, meu corpo e a terra.
Quase como um espírito, eu brigava com minha carne e ela andava em resposta silenciosa. Andou até que parou entre algumas árvores vistosas, que a noite banhava com um brilho frio de joias lapidadas.
– Jara! – Dizia o sussurro vindo da escuridão. – Jara! Tira-me daqui, menino!
Eu entrei no meu corpo demente. Eu e minha pele agora emanávamos a mesma confusão de pensamentos, o mesmo conflito de vontades. Éramos mais uma vez, o menino louco da fazenda. Tão louco, veja você, que percebi que escutava uma árvore falar. Fitei-a com pensamentos vagos de quem retorna do sono, acorda do transe, e dei-me aos risos bêbados que me eram costumeiros.
– Jara! Do que estás rindo, menino?! Anda! Tira-me daqui!
Pensei como quem fala, pois não sabia o que saía da minha boca, nem sequer o que perambulava entre meus pensamentos. Fui parando o riso idiota.
– Árvore não fala.
– Olha pra mim, seu louco! EU estou falando! Tudo que peço é que me tire daqui! Não me importa se quer ou não acreditar no que está vendo!
– Não posso tirar uma árvore do lugar!
– Corte minhas raízes!
– Não! Você morre! – sussurrei choramingando, quando ouvi passar por entre meus lábios algo referente à morte.
A árvore continuou falando, falando… Gemia tanto por liberdade que saí correndo. Não aguentava mais falar com aquela árvore. Falava muito. Foi então, no caminho de volta para minha casa, que aconteceu novamente.
Caí no chão ao tropeçar num galho seco de uma árvore morta, ainda em riste, imponente qual estátua antiga de homens de honra. A defunta me jogou no chão. Senti a morte úmida de seu galho tocar minha perna e logo senti a terra no meu rosto. Terra que cobria e cercava a árvore apodrecida. Eu tive uma visão.
Corri para casa, agora sim, com um medo desvairado, louco, que chegava a fazer tremer minhas pernas em tamanha velocidade de fuga.

Entrei batendo a porta rapidamente e logo meu pai e minha madrasta chegaram ao meu encontro, assustados: “Mas que diabos é isso, Jara?”, indagou a mulher preocupada. Meu pai a acompanhou no espanto e agarrou-me pelos ombros, dizendo que sequer sabia que eu tinha deixado a casa àquela hora da noite.
Olhei os dois e sussurrei ofegante: Jandira vai morrer amanhã. Papai me abraçou, temeroso, enquanto Syra, sua mulher, deixou-se arrepiar os braços com o calafrio que já havia me tomado há tempos. Fingiram não acreditar, talvez para que eu ficasse mais calmo.
A noite foi de mar bravio. Mar este que lançou à terra molhada, nos primeiros raios de Sol, o corpo de Jandira. Morrera Deus sabe como… Apenas morreu. Como a árvore que me derrubou. Justamente a árvore que não falava, disse-me tanto, e fez-me ser conhecido na fazenda. Eu era o menino louco, cujas doidices podiam ser reais. Eu era aquele que sonhava acordado, cujas visões, a qualquer momento, podiam se tornar matéria.

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