Poesias

Acordes

Vem suave na canção
Com perfume afinado
Toda forma de ilusão
Todo amor já condenado.

Vem em notas mal dormidas
Num sussurro apaixonado
Vem curando umas feridas
E cortando o outro lado.

Como truque nunca visto
Que desperta o fascínio
Totalmente imprevisto

Mas que tem o seu declínio
Como alguém que é benquisto
Mas não vive em seu domínio.

O deplorável

Lá vem depressa o deplorável
Tropeçando nas correntes
Vestindo máscara demente
Pra seu dono tão amável.

E só por ele faz de tudo
Joga-se no chão que fede
E só por ele fica mudo
Obedece o que lhe pede.

Vem correndo dizer que sim
Ao que quer que lhe comande
Ele  tem balas de festim
e medo que sozinho ande.

Sabe que a tudo se sujeita
Sobrevive de migalhas
E todo desamor aceita
Idolatra o canalha.

Suporta a dor e a tristeza
Suporta frio e calor
Deixa apagar sua beleza
Pra ver nele seu amor.

As chuvas

Vive nas brumas de ares gelados
O peito vazio, a alma vagante
Cabisbaixa, vacilante
Pés e abismo algemados.

Vive sozinha aos soluços
Com febres e dores
Sem remédio, sem calores
Mordiscando o próprio pulso.

Vive – se vive – gemendo
Coçando, ardendo
Sangrando histórias passadas
Vomitando as mal formadas
Digerindo quem não veio
Devorando devaneios

Vive por cada passo dado
De passos curtos, limitados.

Vive suja e maltrapilha
Sob um céu que nunca brilha
Sempre assim, uma viúva
Esperando as fortes chuvas.

Soneto da quase morte

A dor na alma é um claustro,
Um patíbulo funesto
Feito sobre um cadafalso,
Sobre as graças de um incesto.

Quase morte que perfura
Que rasga, rouba e mata
Será sempre dor futura,
Pois nenhuma lei acata.

Não tem fim, só tem renovo
Não se doma nem se vence,
Teima em sempre vir de novo

Sempre ri de seu algoz,
Faz-se eterna, prepotente,
Sempre cala minha voz.

Finda

Escrevo meus versos como bebo teus suores,
Eu te reúno aos meus pés para que assim me adores.
Faço longas orações com dobras de palavras tuas,
Cerco corpo e mente, pele e alma, casa e rua…
Mas há um vento que sussurra perspicaz
Chama-me de estúpido e evoca-me o jamais.

Tal notas da canção de outrora,
Tal como breve foi a linda aurora,
Assim fugaz se fizeram os dias, os anos e a vida
Agora são rastros de primavera findada, caída
São ecos de um nada túrgido e contido
Nada que tudo foi, nos tempos que foi vivido.

Eu forço minha voz, até onde ela alcança
Escrevo transparente, jogo-te alianças
Eu te puxo em pensamento e sonhos constantes
Creio que me ouves, mas sou tolo relutante.
Meu espírito é um grito de silêncio urgente
Sou cada vez mais alma, mais éter, menos gente.

Mas as forças vão-se em breve,
Pois a ouvir-me não te atreves,
E logo desisto, cansado, só e mudo.
Finda o nós, amor, finda tudo.

Cancro

De onde vem o cancro?
Da palavra, dos terrores
Dos soluços, dos amores
De onde vem?

De onde vem o cancro?
Que lateja, que corrói
Que tortura, que destrói
de onde vem?

Como todo pesadelo,
Que um dia sonho foi,
Eu paguei pra nunca tê-lo,
Meu agora é pra depois.

De onde vem o cancro,
O vazio, a solidão?
Vem de mim e vem-me tanto,
Dos ossos, carne, pele e mãos.

Quando pára de ser cancro?
E endurece sob a tez?
Quando dói, mas não dói tanto?
Quando estanca de uma vez?

Desalento

Do teu reino, o trono olhai
Eu coroo, Eu coroa, vós corai.
Vossos passos e caminhos
Vossas terras e rebanhos
Vossos são ou meus sozinhos?
São mais gastos do que ganhos.

Olhai a bola de cristal,
Pois dela sobem outros eus.
Afoga a pena, afinal
Pois já falei no verso meu.

Largai véus, lavai o rosto,
Saí de cena, soprai a luz
Provai o gosto de desgosto,
Posto o sol que já me pus.