Prosas minhas

Autoria: Nathan Cirino

Cumulonimbus

Lá se vai o mar de nuvens brancas, estendidas até os caninos da terra. Essa terra de bocarra faminta e dentes afiados, pronta para engolir os céus assim como engole a todos nós. Para além dos picos montanhosos e da calmaria do mar de algodão, encontra-se pacata minha cumulonimbus. É robusta e talvez um pouco lenta, mas sua imagem assola as bordas do horizonte, faz temer quem lhe encara. Pesada, como se carregasse um continente e se arrastasse por uma lâmina de açúcar. Minha cria é tão somente horrível e temível, pois é um monstro acumulador de histórias e gente, um depósito de mágoas e frustrações. Todo seu peso e horror, sou eu.

Todas as tempestades que não deixei cair, guardo. Todos os raios e trovões, selo. Minha tormenta é silêncio e ameaça, uma barragem condenada sobre um povoado frágil de mil eus. Não me pergunte porque a cuido, nem porque a admiro, pois há algo nessa imensidão de dores que me orgulha e me prende, tanto quanto me tortura e me condena. Aquela massa gigante, pairando sobre mim, é um feito de desgraça que não vale minha lágrima, mas também é tudo que consegui ser. Há um valor lânguido em ser dor extensa e nada mais. É na facada perdoar a dor e abraçar a lâmina, como se ali crime não houvesse e a morte fosse inalcançável.

Paradoxalmente, tento ser mais leve, embora ela me persiga a toda hora. É lá que amarraram meu fio de prata, e com ela devo seguir em frente. Finjo não vê-la, tanto quanto finjo que não me cansa. A cumulonimbus, de tantas toneladas, pra mim é parte do caminhar. Não sei se ela pertence a minha alma ou se sou um estilhaço seu, tal qual um acidente de percurso, fruto de uma última catástrofe qualquer.

Um dia ela abre as comportas, eu sei. Extravasa. Chove. Lava e leva. Irá gritar seus trovões milenares, cintilar seus raios com fúria para a terra, como se lágrimas de luz fossem.  Um dia ela vira mar de nuvens brancas e caminha serena para a boca aberta da terra, deslizando por entre os caninos montanhosos, descendo à faringe das grutas e gretas, descansando água no estômago ácido de um planeta em inanição. Um dia ela deixa ser peso e represa, e nesse dia o que será de mim? Apenas um vagante na lama que ela deixou, evaporando minhas saudades de quando a tinha por perto.

Um canto no asfalto

A boca sangrou como se o ferimento fosse uma pequena represa implodida. Um filete rubro desceu pelo rosto dela. Morno. De alguma maneira parecia-lhe viscoso, mas ela sabia que era apenas um truque da sua mente. O sangue nunca fora assim tão visível. Deu-se conta de que nunca havia sangrado de fato. Tudo até aquele momento se resumia a arranhões e agulhas, mas agora era real. Ela era fonte de vermelho que lhe escorria da boca e dos braços, das pernas, da testa. Seu corpo estava deitado no asfalto e o carro estava a algumas dezenas de metros. As rodas para cima, ainda rodando. Um dos faróis havia sido quebrado no acidente, mas o outro estava apontando em sua direção. Para ela, uma luz de algum anjo que havia chegado para levá-la embora, para todos que passavam pela estrada era apenas um holofote de teatro lançando drama sobre um corpo arremessado.

“Um segundo”, pensou. Tudo havia sido tão rápido que a impressão era de que o tempo mal cabia nessa medida. O que houve? Capotei. Como?

Era paradoxal imaginar que também houve tempo para ver sua vida inteira numa espécie de visão pré-morte. Enquanto voava pelo vidro da frente, passou pelos pais (jovens ainda), passou por dois ou três amores da juventude, ralou no chão diante de alguns amigos mais antigos, e rebateu-se no chão bem aos pés dos recentes. Quando parou perto do acostamento, pôde dizer que aquela trajetória sangrenta fora sua vida inteira. A dor só veio depois, quando se deu conta de que a luz não era um anjo, mas sim o farol.  Doeria menos ter morrido enquanto a dor, desavisada, não tinha chegado.

Tentou sentir os pés. Tudo certo. Estava respirando. Não tenho porque ter medo. Calma. O pior agora era ser notada. O pior era esperar o socorro de quem quer que fosse. O corpo doía cada vez mais e o tempo era um carrasco cruel. Arrastava-se para resolver o ocorrido. Os carros passavam normalmente, sendo alguns também em câmera lenta. Ela não sabia se para vê-la quase morta ou simplesmente porque sua vista estava deixando tudo devagar.

– Você está bem?! – Disse uma voz surpresa e quase apavorada. Surgiu do nada.

Olhando para cima, com os poucos movimentos que ainda tinha, viu seu pai. Todos por quem ela passou, ao longo do voo mortal, estavam logo atrás. “Vê o pulso!”, disse a tia que lhe deu o primeiro banho. “Alguém pode pedir uma ambulância?”, pediu o primeiro namorado. Todos apreensivos. Todos fitando-a com olhos esbugalhados de medo.  Era bom tê-los por perto. Foi bom vê-los nas últimas forças, quando os olhos já não suportaram encarar as silhuetas ou o brilho ofuscante do farol. Dormiu como que ninada por um canto suave, tranquila.

Foi acordar na terça-feira. Dois dias depois do acidente. Estava de roupa trocada, limpa, num quarto de hospital. As feridas ainda doíam. Uma enfermeira estava do seu lado, encarando seu despertar. “Bom dia”, ela disse com um sorriso, “Que bom que acordou. Vou chamar o doutor”.

A enfermeira saiu do quarto, enquanto alguém comentava sobre uma epidemia de inverno, nos corredores ali fora. As paredes brancas deixavam tudo muito amplo e vazio.  As janelas revelavam apenas um céu azul sem nuvens. Estava sozinha, como estava na hora em que o carro capotou. Não fazia a mínima ideia de quem poderia tê-la trazido ao hospital, nem muito menos quem poderia estar de acompanhante durante aqueles dias. Algum estranho, provavelmente, servindo-lhe de amparo e substituto para todos aqueles que ela havia deixado para trás.

Sentiu falta de todos.

Há muito tempo ela havia aprendido que os laços fracos se desnovelam no primeiro vendaval e os fortes, com o tempo, podem virar nós. Só então se lamentou de ter cortado à faca seus nós, ao invés de ter tentado desatá-los. Naquela cama, ela era linha solta dançando no vento, presa a nada e a ninguém.

Para além do gado magro

Tudo é pó e sol quando chega setembro. As cabras e os bodes procuram a sombra da casa quando a luz se estica na serra. Também ficam debaixo da algaroba quando o calor está a pino, torrando juízo ao meio-dia. O som constante é do vento, quando ele vem, do sinete no pescoço dos bichos. O resto é eco do que sobra, das palavras ditas de repente, de um arrastado de chinela.

O cercado de estacas de madeira dá os contornos do sítio, mas serve de coroa pra casa velha no centro. Não é grande, mas parece imponente. Talvez por remeter a um estar à força, a uma bravura de quem permanece em pé diante da seca. Os dois meninos da casa sabem que ali se chega pela estradinha de terra, mas isso ainda é, de certa forma, um mistério. O que há além das pedras perto do poço? Pra onde se pode ir, caso se tome o prumo de seguir direto, sem freio e sem descanso, pra além das terras do gado magro? Fizeram então uma promessa um ou outro: um dia iriam seguir pela estrada e se perder no mundão que tivesse lá fora. “Vamo ganhar o mundo”, diziam um ao outro, e essas palavras foram se cristalizando ao longo do tempo. Não entenda que isso era um desprezo pelo sertão, era apenas um apego pelo que viria além dele.

Foi mesmo numa manhã de setembro que a história começou a acontecer. Um caminhão parou na porteira e buzinou. Um homem de bigode largo desceu sem camisa e deixou a porta do carro aberta. Os dois meninos olharam com medo, sem saber ao certo como reagir. O senhor insistiu e bateu palmas. “Cadê Bertinha, menino?!”. O mais novo apontou pra dentro de casa. O mais velho gritou “ô mainha!” e ficou encarando o viajante. Dona Berta saiu arrastando a chinela velha. Olhou de longe, enquanto enxugava as mãos num pano de prato já gasto. Foi até o portão, com passos cada vez mais lentos. De longe, as crianças assistiram a briga. Umas tapas que viraram conversa, que virou silêncio, que virou um abraço choroso. “Quem danado deve de ser?”.

O intruso ficou na casa o dia todo. Tomou café, comeu do cuscuz e bateu o pé pras galinhas. Havia um novo homem na casa e os meninos não gostavam disso. “Nunca vi chegar na casa dos oto e bater pé pras galinha”. O sujeito era mesmo enxerido e atrevido, porque às vezes parecia dono da casa. O pior era que a mãe deixava. E foi deixando… No terceiro ou quarto dia, a conversa aconteceu.

– Arimatéia não é só um amigo. – Disse dona Berta enquanto servia a sopa sob a luz de dois lampiões de chama fraca. O som do líquido revolvendo da concha para a cumbuca foi um detalhe que ficou na mente dos seus filhos até o fim. – Ele é pai de vocês.

Pra quem nunca teve nada além de um teto e uma mãe taciturna, ter um pai na cozinha e um caminhão na porteira foi uma revolução. Reagiram de formas totalmente opostas. O mais velho deixou vazar uma risada, como se tivesse entendido a piada, até que percebeu que era tudo conversa séria. O mais novo agigantou os olhos e parecia estar vendo assombração antes de largar um “oxe” sussurrado. Depois da palavra e do riso, silêncio. Berta e Arimatéia tinham mesmo vivido um amor nas antigas e ele saiu pelo mundo, viajando com o caminhão, e nunca mais voltou. Os meninos eram muito pequenos e naquele tempo ainda tinha Zuleide viva pra ajudar nos afazeres do sítio.

Devia ser genético, então, aquele desejo dos garotos de sair pelo mundo. A mãe sabia tanto que acabou perdoando o marido. Esses anos todos vendo os filhos sonharem com a estrada fez ela entender que o pai realmente precisava ir e se perder pelos asfaltos de outras terras. Era uma necessidade, mais que um desejo. Foi contando as histórias do mundo além do gado magro que ele ganhou a confiança dos pequenos. Aos poucos foi falando do mar e das represas, de como tinha água no mundo. Falou das cidades grandes e das pontes, dos prédios e metrôs. “Tem gente demais. Rodando embaixo da terra feito tatu, voando por cima da cabeça da gente feito carcará”, ilustrou, “o mundo tem de tudo”.

Quanto mais ele falava, mais os dois se encantavam. O sonho de ganhar o mundo parecia estar acontecendo. Um dia Arimatéia ia voltar para as estradas, e já havia dito, em uma das conversas, que podia levá-los no caminhão. Dona Berta não gostou da ideia, porque temia que o marido sumisse de novo e a deixasse sozinha para sempre, mas, por outro lado, sabia que os filhos precisavam disso. A conversa durou alguns dias, até que a permissão foi dada, contanto que eles voltassem, no máximo, em dois meses.

Viagem marcada. O mundo estava à espera. Foi a melhor forma de aproximação que Arimatéia conseguiu imaginar. Teria sido bastante eficiente, se a vida fosse assim previsível e os planos da gente fossem seguidos à risca pelas mãos de Deus. Não são.

Quando o menor adoeceu pensaram que era uma gripe besta, mas aí veio uma tosse estranha, uma fraqueza nas pernas. A cor do menino mudou e aquela aura de que tudo se resolvia no chá de limão com alho se foi. Arimatéia chegou a ir até a cidade mais próxima e trazer um médico, mas as notícias não foram boas. Ficaram de conseguir um quarto num hospital, mas ele tinha que esperar. Nesse meio tempo, a viagem pro meio do mundo tinha que começar. Não dava mais para segurar o caminhão parado por mais tempo.

– É uma decisão só tua, menino. – o pai disse ao filho mais velho, enquanto o outro delirava na cama. – Tenho que ir, mas tu vê aí se quer vir comigo. Teu irmão fica.

O mundo estava chamando, mas seria justo ir sozinho? A promessa que eles haviam trocado foi de partirem juntos, mas agora a situação exigia algumas adaptações. E se o caminhoneiro repetisse a ausência de tantos anos que já havia deixado na última vez que partiu? Sem o filho, ele podia ir embora de vez e nunca voltar, com ele havia a esperança do retorno. A cabeça do rapazinho estava um turbilhão só.

– Eu vou. – Decidiu de repente. Pareceu não ter pensado no que dizia, porque seus olhos estavam fixos na cama, sem reação alguma. – Vou com o senhor.

– Então a gente sai amanhã cedo.

Dona Berta olhou de canto do olho pro filho. Nem triste, nem raivosa. Foi um olhar de quem confia, mas ao mesmo tempo acusa.

O caminhão levantou poeira na estradinha quando o relógio marcou exatos dez minutos passados das cinco horas da manhã. Foram embora deixando o pequeno doente e a senhora com olhos marejados. Suas lágrimas eram muralhas, como sempre foram, nunca represa rompida. Durante todos os dias seguintes, ela foi forte o suficiente para carregá-lo nos braços até o banheiro, para ir andando até o poço e trazer água no balde, para cuidar dos bichos e das poucas plantas que ainda rendiam alguma coisa. De alguma forma, ela sabia que fazia o possível, mas não seria o bastante.

O pequeno perguntou pelo pai no primeiro dia, mas a dor visível aconteceu quando perguntou pelo irmão. Depois disso foi só silêncio, gemido e tosse. Falava o indispensável e choramingava de vez em quando. Ela nunca soube se era choro de saudade, de decepção ou de cansaço. A rotina era um fardo para ambos.

Quatro dias depois da partida do irmão, ele abriu os olhos e viu algo diferente no quarto. Havia cordões pendurados nas madeiras do teto, logo abaixo das telhas. Eram muitos. Dezenas espalhados pelo aposento. Na ponta de baixo, cartões postais estavam presos, oscilando lentamente. Próxima à cama estava a torre Eiffel, vizinha às pirâmides do Egito. Mais pra perto da porta, o Rio de Janeiro se espreguiçava sobre as curvas do corcovado. O mar! Ali estava o mar de alguma praia belíssima, com águas azuis, bem em cima da bacia com a toalha molhada. Eram vários recantos do mundo, pendurados em barbante de feira, ocupando todo o quarto. Ao lado da cama, seu irmão mais velho o encarava com um sorriso.

– Num disse que a gente ganhava o mundo junto? – Ele falou baixinho.

– Isso num é o mundo. – Respondeu com a voz embargada e fraca.

– Claro que é, bicho besta. O mundo cabe todinho no quarto de mãe.

Do lado de fora da casa, a rasga-mortalha cantou pela primeira vez. Não demoraria para que cantasse de novo e de novo. Toda a chuva do mundo podia ter caído no mês de outubro, mas o sertão não floresceria. Fosse a água que fosse, o verde do mato não ousaria sair para encarar o sol. O mundo, lá fora e distante, continuava o mesmo. Pessoas ainda corriam pra cima e pra baixo, debaixo da terra e bem alto no céu. O mar e as pontes, as cidades e monumentos, todos alheios ao quarto na casa de dona Berta. O sertão, no entanto, estava de luto. E esse era o mundo que importava.

Meia esfera

Ele quis levar as mãos à face e chorar, como fazem nos filmes e nos videoclipes. Quis olhar pela janela e ver o outro saindo pela porta da frente, deixando um rastro de qualquer coisa etérea que servisse de fio de Ariadne para que pudessem se achar depois. Tudo que conseguiu fazer foi deixar os olhos se banharem no marejado covarde de quem não se permite o pranto. A dor cresceu por um instante. Socou-lhe o diafragma com tamanha força que um soluço apareceu sem aviso. O que restou sem você? É tão injusto ser carregado para longe de mim dessa forma! Um sequestro de alma. Um corpo vazio que fica.

Houve um frio indecente depois que ele fechou a porta. Uma lufada de tristeza assumiu o ateliê e todas aquelas obras de repente perderam as cores. Estátuas inacabadas de gesso e argila, quadros de tintas vibrantes, rabiscos de azul e vermelho, anotações de grafite… Nada mais ali era agradável para aquele artista abandonado, sentado num banquinho de madeira sujo. Você dizia que minha arte era sobre nós. Agora vejo que elas são nossa própria união, nossa cola, nosso encaixe.

No meio do ateliê, viu uma de suas obras: uma esfera de madeira. Perfeita na curvatura, suave ao toque. Ela não fazia mais qualquer sentido. Aquela perfeição circular, aquela ausência de falhas e frestas. A esfera era tudo que existia antes da porta se fechar. Agora, no entanto, ela incomodava por ser lembrança do que não se pode mais ter. É tudo que poderíamos ter sido. Mas não somos. Não podemos ser.

Cortou a esfera em duas. Na base de cada uma das partes colou uma base de ímã. Olhou para a esfera partida e uma obra nova tinha nascido. De certa forma, fazer aquela mudança foi um jeito voraz de gritar aquela dor do abandono. Somos como essa meia esfera e seu íma. Por um segundo insistiu em tentar juntar novamente as duas metades, mas sentiu as duas bases de ímã se repelirem. Havia uma força invisível que não deixava que elas se unissem mais. Afastavam-se, embora ele soubesse que uma era a metade certa e exata da outra.

É assim que as coisas são. Sem a máscara do romantismo, das possibilidades ideais. Meia esfera eu, meia esfera você. Perfeitos um para outro, naquela realidade que não existe. Não me parta ou jogue fora, embora eu esteja aqui do outro lado. Não se ache completo sendo só a metade. Também peço que não force uma união. Isso já não nos cabe. Ficou no limbo. Aceite, apenas, que estou aqui do lado, te completando sem te tocar. Para mim basta isso. Só não vá embora, por favor, achando que sua outra metade ainda está por vir.

O lado de lá do mundo

Pela janela de vidros limpos, o horizonte é um convite. Enxergo-o pairando entre os soluços da serra e os saltos dos prédios. Tímido. Está ali nas brechas entre montes e concretos, como uma criança que esconde o corpo, mas espia descuidada, revelando o olhar sorridente.  Vejo-o aberto ao que está além. Um caminho cheio de ventanias e sol, distante de meu claustro. Onde começa a viagem para o lado de lá do mundo?

Enquanto esta torre me protege, também me limita. Entendo, vagarosamente, que há tristeza na segurança, pois estar seguro é privar-se do inesperado; e sinto-me em abstinência daquilo que não posso controlar. A torre faz alguém em mim gritar um “basta!”, deixando-me ansioso por contiguidade de almas. É preciso deixar algo fluir, ser o que tem que ser. Abandonar todo e qualquer controle. Mas controle sobre o quê?

Mecanizado. Sistemático. A torre me fez seguir uma cartilha sem autor, sem lógica, em desacordo com minha própria essência. A   janela de vidro impecável, entretanto, parece me dizer que chegou o momento de romper o padrão, a lei, o fardo.

Da minha prisão de seguranças máximas, eclode minha liberdade sufocada. Que me receba bem o vasto horizonte a céu aberto! Deixo livre tudo que controlei um dia. Deixo tudo apenas ser, e recebo os louros e açoites de viver com o que vier. Que tudo seja vendaval e sol, rumo a algum lugar onde eu seja pássaro desbravador.

Presente

Eis que a raiva e a revolta viraram tristeza. Já fui de enfrentar o mundo, mas hoje apenas me compadeço dele. Como seriam bem-vindos os gritos de protesto! Mas tudo que me chega à boca, nesse instante, são murmúrios de um choro preso. Essa sensação, de que não adianta lutar, talvez seja a forma mais cruel de condenação. Existe na minha garganta uma passeata branca e inexpressiva, um silêncio do quê dizer, porque tudo já foi dito.

Meus ideais, de tão limpos e claros, foram postos à margem da revolução dos imundos.  Tudo que vejo agora é a sombra da besta que se ergue das ruas, das mansões, das urnas. Minha fé foi metralhada e padece em seus últimos suspiros… Olho em volta, como uma Madalena imaculada, sob as miras das pedras que não mereço. É injusta a justiça, é cruel meu julgamento.

Tenho em mim um silêncio doente. Uma voz cheia de intenções, numa boca que não se move mais. Falta-me aquele brilho de outrora, a gana de combater o bom combate. Tudo é mentira e maldade, é tudo vantagem e guerra.

Como todo moribundo, prezo pelo descanso. Espero. Preciso, sim, desse momento de desilusão. Preciso me sentir à beira do abismo, como se não houvesse mais o próximo passo. Preciso sentir a dor dos injustiçados. Preciso perder a batalha. Preciso sentir. E então voltar com as cicatrizes, rumo a uma nova luta.

Estou calado, porque é necessário o luto por esse eu que sangra. Estou quieto, porque estou sarando as feridas. Fraco, para juntar novas forças.

Eles podem matar minha voz incômoda, mas minhas ideias correm pelo ar e se enraízam em outras bocas. Eles podem me matar na emboscada, mas eu ainda estarei presente. Em um novo levante, em um novo tempo, ressurgido com mais fome de luta. Deixem-me, por enquanto, velando um eu derrotado, que, em breve, estarei marchando de novo, de pé no fronte de batalha.

Silêncio de mil palavras

Minha boca não abriu. Não disse. Não protestou ou justificou. Calou-se. Nas outras vezes, quando a resposta ainda vinha, ela batia nas paredes com força e morria no chão, agonizando depois do choque. Responder, ou não, dava no mesmo. Os únicos resultados eram sofrimento e perda de tempo, então, retrucar deixou de fazer sentido.

Ela fala alto, como de costume. O dedo em riste e os olhos fumegando. O motivo? Talvez a toalha na cama, ou as dívidas de jogo. São muitas possibilidades para um mesmo fim. Não tiro sua razão, como ela me tira a justificativa. Escuto. Dois ouvidos bem ativos e uma boca selada me contemplam nesse momento. Em algum lugar de mim, ouço a voz que me chama de covarde. Aquele ser demoníaco que todos carregamos logo abaixo do pulmão, que vez por outra nos acende uma fogueira no peito. Foi bem o que ele fez. Ateou-me fogo por dentro, mas minha boca não abriu. As chamas me consumiam, mas calei. Abrir a boca, naquele instante, seria baforar as labaredas que nos consumiriam ainda mais.

Diante do meu silêncio, ela parou. Ainda estava furiosa, claro, e queria me ver também da mesma forma. Chutou minha caixa de papéis, que já estava tímida na quina do quarto. A conta de luz pousou no chão, enquanto eu engolia a fumaça das minhas chamas secretas. Olhamos um para o outro.

Ela era a fúria que eu odiava, eu era o silêncio que lhe causava repulsa. Dois estranhos.

Quando ela me perguntou se eu não ia falar nada, consegui abrir a boca. Língua, dentes, lábios, prontos para vomitar um texto de mil palavras, mas tudo que me saiu pela garganta foi um fôlego trôpego, uma expiração de cansaço. Cansado. Era exatamente isso que traduzia minha redação não lida.

Nesses momentos, quando tudo que poderia ser dito soa repetitivo, o próprio corpo cansa. Não quer falar, não aceita debater. Apenas cala, como quem diz “chega”. Olhei nos olhos dela e esperei que me lesse, porque já tínhamos intimidade para isso. O que eu falei estava no ar, pairando invisível, dançando entre as cortinas, ondulando entre a louça no escorredor de pratos e os lençóis na cama mal forrada. Estava tudo ali, no nosso lugar, no nosso espaço, nela. Minhas palavras estavam escritas na pele daquela desconhecida, uma tatuagem cursiva, delicada, com pedidos de paz e declarações de amor.

Apenas saí de casa e deixei ali as palavras. Até hoje são sua companhia, e a acusam de toda a culpa do fim, embora eu as reprima por tamanha responsabilidade. Erramos os dois.

Hoje sigo em silêncio, porque as palavras deixei com ela. Estou indisposto para falar novamente, para ouvir de novo. Sigo feliz no zumbido calmo de quem não tem o que replicar, de quem só canta e assobia a solidão bem-vinda que a liberdade traz.